Isso pra mim é festa

Como tem chovido neste começo de ano.

Desde muito tempo não vejo a azulice do céu.

E a chuva tem feito vitimas país afora. Deslizamento de terra, famílias inteiras soterradas, rodovias interditadas, e todas as sortes de calamidades possíveis enlutam o país inteiro.

Não se fala noutra coisa. Tragédias, a tal pandemia que não termina nunca, só muda a cepa do vírus, desemprego, o governo tentando por a casa em ordem, e, não bastante tanta coisa ruim as eleições se avizinham.

De tempos pra cá não tenho assistido a televisão. De nada adianta mudar de canal e tudo versa sobre o mesmo tema.

Neste começo de fevereiro, mês curto, que termine logo, as chuvas não dão sinal de atenuarem.

E lá na roça, pra onde vou aos finais de semana, é tempo de ensilar.

A roça de milho já está passando do ponto. Antes que seja tarde mister se faz picar os pezinhos de milho, e enterrá-los num buraco feito de véspera.

Silagem azeda não satisfaz o paladar refinado das vacas. Durante a entressafra é o alimento predileto daquelas ruminantes. Não só aumenta a produção leiteira, como faz encher o bucho das vaquinhas, que passam quase o dia inteiro saboreando aquelas guloseimas.

E como elas comem. A se fartar.

Tenho um amigo, velho conhecido, vizinho de pasto, de nome nada convidativo.

Toninho Resmungão, tido nas redondezas como de difícil convivência, pra mim até que não, sempre que tenho tempo faço-lhe uma visitinha.

Sempre o encontro com a mão na massa. Sujo como pau de galinheiro. Parece, o que não tenho dúvidas, que o banho não faz parte de sua rotina.

Mas uma das suas qualidades maiores sem sombra de dúvida é a sua maneira de encarar a vida.

Pra ele não tem tempo ruim. “Se melhorar piora.”

Nestes tempos chuvosos Toninho está prestes a encher o silo. Só que ele faz tudo à mão desarmada.

Não tem trator muito menos ensiladeira.

E ele começa o trabalho na lavoura de milho antes da coruja fechar os olhos. Depois de uma noite mal dormida.

Naquela tarde chuvosa, com barro pelo pescoço, Toninho, de podão em punho, pica os pezinhos de milho um a um. E leva a carga ainda molhada morro abaixo. Ele sozinho cuida de enterrar o milho picado.

E tome chuva nos costados.

Depois de quase um dia inteiro naquela lida cansativa Toninho se prepara para a segunda ordenha do dia.

Ele dispensa ajuda. Por mais que lhe ofereçam.

Naquela tarde chuvosa, quando me preparava para voltar à cidade, acabei parando um cadinho perto do meu amigo Resmungão.

A nossa prosa gostosa versou sobre muitos assuntos. Sobre o preço do leite. Sobre as estradas que não davam passagem. Não deixamos de lado a tal doença da moda.

Toninho, sem tempo para alongar a prosa, acabou me despachando com esta frase com sabor de quem sempre está de bem com a vida: “Isso pra mim é festa. Se a chuva continuar vou fazer de conta que o sol volta a brilhar. O trabalho nunca me meteu medo. Tomara você pense do mesmo jeito”.

Desde então acabei mudando meus conceitos.

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