Passam os anos e a gente muda.
Não apenas de idade. Como de comportamento também.
Antes, nos frescor dos anos, jovenzinho ainda, não via a hora de correr atrás das meninas, pensando que elas só tinham olhares em minha direção.
Foram enganos que só a passagem dos anos me fizeram mudar de opinião.
Uma vez adulto feito, sonhos ainda por serem concretizados, pensava alcançar todos os meus objetivos.
Mas só o tempo me ensinou que nem todos os sonhos são factíveis de serem alcançados. Muitos deles ficam à beira da estrada. E a gente passa por eles e nem consegue identificar quais seriam os mais importantes.
Com o tempo, com a idade avançando, aquele sonho que a gente pensava ser intocável acaba sendo mais um devaneio, um reles desejo que a gente deixou pra trás.
Inconteste verdade que o tempo ultrapassa a nossa velocidade de sonhar.
Sonhos em verdade não se materializam. Pena que, devido a minha imensa sensibilidade, aquele sonhozinho que me acordou durante a noite acabou se tornando um pesadelo.
Até hoje durmo pouco. Não sonho mais.
Antes, na flor da idade, exigia mais do que poderia realizar. Era tempestuoso e intempestivo.
Chegava antes da hora. Tinha pressa. Sofria por querer demais.
Exigia dos outros mais do que eles poderiam me ofertar. Daí a minha ansiedade em querer fazer o mundo a minha maneira. Mas só o tempo me fez compreender que nem todos são iguais. Daí a diversidade da qual são feitas as pessoas. Umas têm a pele clara. Outras a melanina tinge a cor da pele em tonalidades mais escuras. Mas todos são iguais. Seja preto, branco, amarelo ou de que tonalidade for.
Agora, com o passar dos anos, acabei me tornando menos seletivo.
Não mais seleciono os amigos segundo a cor da pele. Nem mesmo pelo berço onde foram nascidos. E sim pela disponibilidade de me oferecerem um ombro amigo. Nas horas em que mais precisar.
Tornei-me menos seletivo naquela pressa que me dominava. Agora a espera não me machuca tanto. Aprendi a conviver com os defeitos alheios. A imperfeição dos outros não mais me incomoda.
Confesso que a anterior vaidade não me faz a cada dia olhar no espelho. Acostumei-me a me ver como um idoso com alma de criança.
Agora, que me tornei quase ancião, embora esta palavra me assuste, pois ela enseja a morte, a seletividade pra mim se confunde com sensibilidade. Ainda me condoo com um pássaro morto sem ter aprendido a voar. Com uma borboleta pousada numa moita de espinhos. Com uma criança enferma, sem possibilidade de se curar.
Acabei me tornando um sênior com escassa seletividade. Pra mim tanto faz andar pra frente ou ao revés.
O tempo me ensinou a deixar a seletividade de lado. Não mais evito coisas que me apoquentam. Elas fazem parte da vida que tenho levado.
Concluí, com o passar dos anos, a olhar pra cima e ver o sol brilhar. Aprendi a admirar a chuva que cai. As flores que desabrocham. O orvalho que umedece a relva do jardim.
Ser menos seletivo confesso que me faz feliz. E não me atazanar com o mal que desejem a mim. A eles retribuo com o bem. Melhor assim.