Janeiro chegou ao fim.
Deu seu derradeiro suspiro.
Amanhã nasce fevereiro. Mês curto. Como curta lhe foi a vida.
Uns vivem por muito tempo. Já outros mal nascem e já se despedem da vida.
Não há como vaticinar o quanto de tempo teremos adiante. É uma incógnita ainda ignorada. Digo felizmente.
A vida pra muitos é efêmera como a borboleta que mal deixa o casulo. Avoa de flor em flor, bate as suas asas docemente, e morre sem tempo de conhecer o que será o dia do amanhã.
Ah, este amanhã que chega depois da madrugada! Hoje ele amanheceu cinzento. Chove a passar dos limites. E por falar em limites cada um de nós tem o seu tempo de existir.
Esse fato existe desde quando a gente se conhece. Imagine caso a longevidade fosse perene? E nós vivêssemos eternamente? Este mundo maravilhoso não teria espaço para todo mundo. Seria um planeta intensamente povoado.
A produção de alimentos seria exígua para nos alimentarmos. E as oportunidades de trabalho seriam escassas a satisfazer-nos as necessidades.
A cada dia se despedem milhares de pessoas. Não apenas por mortes naturais como da mesma forma devido a tragédias que têm acontecido nestes derradeiros tempos. Graças as tempestades que tem devastado o nosso planeta. Assim como a miséria, a fome, que infelizmente tem sido noticia pelos quatro cantos do universo.
Janeiro teve seu desfecho. Hoje é o último dia do mês.
Conheci um bom amigo. Gente da prateleira de cima.
Seu Eusébio já vivia nos descontos. Naquele último mês ele contava com quase noventa anos.
Sempre viveu para o trabalho. Constituiu uma prole generosa como ele sempre foi.
Conquistou, pela vizinhança, não apenas amigos como admiradores. De bem com a vida jamais o percebi de cara fechada.
Sempre que por ele passava, quando de volta da minha roça, Seu Eusébio fazia questão que eu parasse. O que sempre acontecia.
Era um tagarela que palrava pelas bochechas. Nos últimos tempos, graças à ociosidade, o amigo Eusébio engordou a olhos vestidos. Ele passou a pesar quase cento de vinte quilogramas.
Daí a contrair diabetes e hipertensão, teve as taxas de colesterol perigosamente elevadas, doenças que desconhecia quando mais jovem. Ainda me lembrava dele com as costelas a mostra. Braços musculosos, barriga que mal se via por dentro da camisa sempre suja. Amarelecida pelo trabalho constante.
Tudo veio a acontecer naquela última semana de janeiro.
Segundo me disseram, numa tarde de domingo, depois de tomar um cafezinho magro, já que estava de dieta, o amigo Eusébio sentiu-se mal.
Faltou-lhe a respiração. Teve um mal súbito. Mal tiveram tempo de levá-lo ao hospital da cidade próxima. Ele morreu ali mesmo. Assentado àquela laje de pedra dura.
No sábado passado por ali passei. Procurei com os olhos pelo amigo Eusébio. Ele não estava mais lá.
Quando me contaram do seu passamento passaram-me pelas lembranças a imagem dele. Um homem sem defeitos. Cujo único defeito, segundo ele mesmo me disse, seria bondade pura.
Aquele foi seu último janeiro. Que hoje se despede por inteiro.
Amanhã chega fevereiro. E o ano segue. Quando será meu último janeiro? Ainda não sei. Quem souber adivinhar por favor não me diga. Deixe apenas o tempo passar.