Ah! Se pudesse apagar o tempo usando uma borracha como usava nos meus tempos de menino. Quando deixava escrito numa folha amarelecida pelo tempo aquela cartinha de amor endereçada a ela. Imaginava que ela a recebia e passava seus olhinhos em cada linha do meu escrito. E não por não saber ler, já que elazinha foi alfabetizada anos antes e era bem letrada a danadinha. Mal sabia eu que seu coraçãozinho diminuto, e muito arguto, não batia descompassado pelo meu. E sim tiquetaqueava lépidos a passos velozes seus batimentos. Que não eram pra mim sim para outro amigo meu. Que se mostrou ser pouco amigo, aquele que chamam daquele felino tinto em cores lindas daquela onça pintada por vezes encontrada em nosso pantanal.
Ah! Como esse tempo citado tantas vezes nos meus escritos é nosso adversário já que fazemos aniversário uma vez ao ano sempre.
Se eu pudesse dizer com todas as letras a ele diria não murmurando sim em voz alta tudo isso: “por favor, senhor tempo. Dê-me um tempinho mais apenas para acordar mais tarde. Dormir mais um cadiquinho antes que fique caduco. Espreguiçar-me naquela cadeira de balanço presente do meu avozinho. Dar-me de presente tempo ao tempo. Ter menos pressa refém do afogadilho antes que me afogue afobado em mim mesmo. Digníssimo senhor doutor magnífico ilustradíssimo magnânimo TEMPO, em letras grandes se me permites. Me deixe apagar todo tempo ruim que tive no meu passado e somente conservar no freezer gelado da geladeira tudo que pra mim foi bom e de boas recordações.”
Foi numa madrugada como essa que teve no mês de agosto seu porta voz e eu, seu escrevinhador.
Quando, numa sexta feira desse dia e mês em que estamos apenas no seu começo.
Agosto entrou desgostoso a contragosto meu.
Assim que minha caminhonetinha bateu seus pneus na entrada da estrada da minha rocinha deparei-me com uma cena inusitada.
Lá estava postado deitado na porteira meu vizinho, com quem dividia as cercas o tal sonhador senhor, da minha idade ou mais, seu Júlio que não era nascido no mês de julho e sim em junho.
Notei-o desconsolado e muito acabrunhado.
Nada o fazia alegrar-se.
Fiz-me de palhaço, fiz piruetas e macaquices. Plantei bananeira e ela não deu bananas.
Acabei dando uma banana pra ele e Seu Júlio nem revidou ao meu insulto.
Permaneceu como estava, fazendo-se surdo mudo.
Uns bons séculos de minutos se foram e o tempo passava lento e eu apressado como sempre.
Enfim, como tudo parecia perdido eu não me achava. Aquele seu Júlio finalmente soltou a palavra.
Desse jeitim desajeitado: “olha pra mim meu amigo e compadre. Te conheço desde que a lua se deitou com o sol, tentou fazer amor e se queimou. Posso te contar uma história, de amor e de paixão? Juro que ela não se trata de mais uma invencionice minha. Não sou nenhum escritor, que seja de crônicas ou romances, como você meu amigo e não dispenso sua amizade meu bom doutor do dedo invasor. E só te peço que jures não contar a ninguém o meu causo de amor. Ouça e guarde a sete chaves no seu baú de guardados e jogue a chave do cadeado numa moita de bambu onde nem uma pessoinha enxerida encontre, por favor…”
E assim, não assado, começou sua cantilena.
“Euzinho, quando comprei essa rocinha, do ladinho da sua, tinha apenas vinte e seis anos. Era antes um jovem sonhador e agora um velho desiludido com a vida e sujeito ao desamor da velha namorada com quem tive o azar de ter casado. Naqueles idos anos, foram-se uma infinidade deles, namoricava duas pessoinhas distintas. Minha atual esposa e uma menininha lindinha nascida a menos onze anos que os meus. Nosso romance romanceava mais que menos com essa mulher prendada que de minha namorada se fez minha esposa. A outra ficou relegada ao passado e ao olvido do esquecimento. Mal sabia por onde a segunda andava e menos ainda o que teria sido feito daquela zinha. E o tal tempo continuava na sua correlança igualzinha a minha na minha correria pelas estradas vicinais ou asfaltadas. Trintanos deixaram-me com a pulga atrás da minha orelha. Minha, aliás nossa união ia de mal a pior. Não nos dávamos nem cama nem na poltrona da sala de visitas. Éramos como gato e rato. Cada um tentando comer a maior fatia de queijo possível. Éramos como azeite de péssima marca e salada de ótima qualidade que não se misturam a contento. Nossas desavenças, não uma invencionice minha e sim dela, a cada dia maior era a antipatia.
Foi quando, anos antes de hoje, deixa o tempo falar quando foi, ele sim sabe melhor que nós dois. Não foi pela internet nem pela patinete, naquele dia enluarado, melhor dizer noite de lua cheia. Recebi, não foi uma cartinha de amor nem desamor, uma mensagem pelo meu e-mail na minha mala de mensagens assim escrita e bem: “sabe quem te envia essa escrita? Não? Sua namorida da rocinha vizinha. Não se lembra de mim? Meu nome é Sebastiana mas prefiro que me chames de Tianinha. Hoje me acho solteirinha da silva. Tenho quarenta e seis anos e quem me conhece diz que não pareço mulher dessa idade e sim uns vinte e cadinho. Sou ainda mais saborosa e gostosa de quando nos conhecemos. Sou dona de mim mesma e não tenho satisfação a dar a ninguém. Dona do meu nariz lindo como quando nos beijamos pela primeira vez. Não quer me ver de novo? Vamos nos encontrar na porteira. Adonde nos vimos pela primeira vez”.
O veio Júlio, que não tinha parança nem pança, vislumbrando a oportunidade única de encontrar naquela Tianinha sua felicidade perdida e nunca mais encontrada, não pensou sequer uma centena de vezes. Iria com certeza não absoluta e impoluta de jogar tudo pros ares poluídos de onde morava. Separar-se-ia sem mais delongas longas e procuraria a felicidade nos braços de sua antes amada Sebastiana que prefere ser tida Tianinha.
Pena que o tempo não se apiedou tanto do Júlio como da linda ainda Tianinha.
Como o supra citado Seu Júlio não se decidia pela separação de corpos. A ainda linda Tianinha, mulher de encher de alegria mais de cem talheres por sobre seu lindo corpo. Sabedora da insegurança e da falta de coragem do seu amado Júlio em não se separar de vez pra sempre de sua dona mandona. Acabou, antes de se acabar, unindo-se a outro, numa tentativa de bem se relacionar finalmente encontrar sua paz.
Seu Júlio, muito judiado pela união da qual não conseguia se desligar, numa missiva finalmente que teve com o único amor de sua inexpressiva vida de nome abreviado Tianinha, deveras era Sebastiana. Ela assim se manifestou por watsup: “a vida é feita de escolhas. Você fez a sua. Por favor me esqueça”…
Ah! Se eu pudesse apagar o tempo. Esquecer de tudo de bom que o tempo levou…