Tempo, palavra que indica velocidade, anos que passam, amores que, ou são esquecidos ou ainda lembrados de um tempo passado, que ao mesmo tempo damos tempo ao tempo, sem sequer nos lembrar que, quando dei começo a esse texto meu relógio me dizia ser cinco e alguns minutos e qual tempo vou gastar até chegar ao final deve ser menos de hora e meia, se der tempo.
Isso de não dar tempo a gente, idosos, não velho me tenho, sênior um senhor de ralos cabelos tintos em neve branquinha que apenas se deixam ver nas têmporas grisalhas, nomeio meus cabelos brancos de cãs, para não cansar vocês, voltamos ao que meu título enseja.
Espero que a mesma história não se repita…
Meu saudoso pai, sobre o qual já teci vários encômios elogiosos em outros escritos. E outros que se gabam gabolas de terem vivido a seu tempo. Não se cansam de me dizer, ao me verem nas minhas andanças costumeiras, quando nas ruas me param e, dada a minha parecença com aquele homem correto, de uma idoneidade incomum, de parcos cabelos inda negros a cobrirem ralos do lado de sua cabeça muito pensante. Dizem-me sempre: “doutor Paulo, conheci seu pai Paulo José de Abreu quando ainda gerente de um banco de nome do nosso país. Uma vez apenas precisei de um dinheirinho miudinho para pagar uma prestação numa loja bem perto do centro de nossa cidade. Ele me atendeu na gerência cordialmente. Levantou-se de sua cadeira apertando minha mão suada dado ao enorme constrangimento quando me fiz presente a sua sala. Ele de imediato examinou minha conta corrente desprovida de saldo. Um tempinho escorreu lentamente. Como seria impossível emprestar dinheiro aos não clientes desse banco ele mesmo procurou no seu bolso notas, naqueles idos anos as maiores que existiam, me deu de presente duzentos reais sem querer receber aquela polpuda quantia de novo e me disse, com a mesma lhaneza de trato: “isso não é um empréstimo é uma doação que lhe faço de coração pois bem o conheço e sei da sua lisura e hombridade”.
Pena que bem sei o que a idade provecta faz com as pessoas…
Não merecemos tamanho castigo anos adiante do que estamos vivendo.
Inda me lembro daquele dia e outros similares.
Minha amada e não esquecida mãezinha dona Rute Rodarte, fomos nós dois e meu pai almoçar em um restaurante de uma fazenda de nome Laje.
Comidinha muito gostosa à moda mineira, feita num fogão a lenha igualzinho aquele das minhas tias avós, Mariana e Leonor, zona rural de Perdões, fazenda rocinha da Cachoeira que nem cascata tinha.
Em meio ao almoço minha mãe percebeu, eu ainda não havia, das calças do meu pai escorria um líquido amarelo citrino mal cheiroso que se tratava de urina.
Era o começo de mais uma enfermidade, não aquela que levou meu bom pai à sepultura. Aquela dantes chamada de caduquice; agora tem um nome pomposo, em alemão, Alzheimer.
Nós, urologistas a chamamos de doença da próstata hipertrofiada ou HPB.
Foi a pior intervenção cirúrgica que tive de fazer nesses meus anos todos de especialidade.
Naquela manhã num tempo passado, mais uma vez a palavra tempo aqui foi escrita.
Não tanto tempo faz ainda, creio que em comecinho de um mil novecentos e qualquer coisa.
Nunca fui bom em me lembrar datas, a do meu aniversário sei de cor, sete de dezembro de um mil novecentos e quarenta mais nove nasci.
No centro cirúrgico da Santa Casa, aqui pertinho, embora esse hospital esteja muito renovado e revigorado com novos médicos pra mim muitos desconhecidos.
Saquei a próstata do meu pai usando meu dedo indicador com muitas dificuldades.
Tive ao meu lado um enfermeiro por mim treinado o gentil forçudo Dedé. A minha frente um auxiliar de peso meu primo Neto cirurgião das veias varicosas e doenças outras do sistema vascular de nosso corpo seja em que idade for.
No seu pós operatório dormi ao seu lado vigiando as sondas que poderiam ser entupidas por um grande coágulo desgarrado.
Foram noites insones e de muitas preocupações não só pra mim, seu operador e filho ao mesmo tempo. Assim como para minha mãe, sua cuidadora ao final triste de seus dias. Penso ter sido ruim para meu irmão Fred, que morava na nossa linda Belo Horizonte, onde me graduei em medicina em um mil novecentos de setenta e quatro.
Hoje, nesse ano de dois mil e vinte e seis, aos setenta e seis, falta mais um a atingir sete mais sete. Nessa idade em que meu pai se foi numa viagem sem retorno.
Sinto os mesmos sintomas dele e de outros que pelo meu bisturi afiado passaram.
Premência miccional, se vacilar a urina sai sem querer. Aquilo que nós, especialistas chamamos de second voiding, qual seja ficar um restinho de urina depois da micção a nos manchar a cueca. Ter de acordar duas ou mais vezes para irmos à privada apressados para não ensopar o colchão novinho quentinho numa noite friorenta.
Espero não passar por tudo isso que meu pai Paulo José de Abreu passou. Logo eu que sou um grãozinho de areia perto da grandeza que todos diziam-no ter.
De não precisar ser operado da minha próstata crescida e sem serventia nos tempos de agora.
De ter de dar trabalho aos meus filhos e menos ainda aos meus netos nos meus momentos finais.
E de não ter de dizer a minha esposa, em noites insones , nas minhas correlanças ao banheiro: “me desculpa, não deu tempo e molhei nossa cama”.