Tem gente idiota que se acha…
Um reles soldado se diz general.
Um aprendiz de não saber nada metido à besta, que com um pincel na mão sai grafitando os muros dizendo-se um Picasso ou um adorável Salvador Dalí.
Um sabichão que arma confusão na rua, qual um palhaço sem lona desempregado de um circo falido, tentando iludir a multidão vendendo produtos vencidos pondo em risco a saúde dos pobres infelizes compradores.
E outro espertalhão que nem sabe ler direito. Que passa na escola dizendo ao diretor que gostaria de ser professor de literatura. Ah! Se o diretor da escola soubesse de onde ele veio faria um BO e logo a polícia ia trancar aquele falso profeta não no templo que ele disse ser o oráculo e sim entre grades que ele bem merece.
E até mesmo aquele que se dizia a derradeira bolacha gostosa daquele pacote imenso. Se abríssemos o tal pacote, famintos de olho gordo nas tais bolachas. Assim que degustássemos aquela que ele diz a melhor, cuspiríamos fora de nojo, tal o logro que cairíamos, e daremos o fora nele mesmo.
Noves fora dizia eu, em uma infinidade de dias vencidos. Quando noves fora dava no mesmo que dizer vamos deixar de lado, em resumo, no fim das contas…
Quem se acha nada representa aos que se acham pouco.
Nada como ser humilde e honesto nesse país onde a falta de humildade e a desonestidade são tidas como virtudes embora pra mim e pra muitos essas qualidades primeiras sejam as de maior valor.
Em terra de cego quem tem um olho pode se tornar rei.
E ainda pode perder o trono se um malandro qualquer seduzir sua rainha e ao lado dela ser coroado. Concordam comigo?
Seu João, caboclo turrão, pra mais de honesto e bom de enxada.
Dono de um pequeno pedaço na roça distante a dois tiros de espingarda da cidadezinha mais próxima. Que era de uma lonjura grandona pra onde só ia quando de muita precisão.
Já que no seu pedacinho de pasto sujo, com uma infinidade de cercas a serem remendadas e ele não emendava, pois sozinho não tinha tempo.
Esse João tinha mais valor que mil notas de milhares de euros, dólares, libras e outras moedas quaisqueres. Não falei no real pois, realmente a nossa moeda é das que menor valor tem nesse mundão em que vivemos e convivemos com tantas desigualdades.
João nasceu e cresceu um cadinho naquela localidade.
Era pau, pedra, mato sem cobra, pra todo tipo de obra.
Quando careciam de um pedreiro quem era o melhor? Não carece escrever seu nome – JOÃO, em maiúsculo sim.
E se a precisão fosse carpinteiro ou carteiro? De novo não era novidade – JOÃO.
E se alguém precisasse de uma parteira a acudir a parturiente à hora do parto? JOÃO.
E se carecesse de fazer uma capação de porco capado gordo? De novo indicaria o mesmo JOÃO.
E se no caso alguém, em dificuldades, numa horinha de muita afobação, gritasse alto “socorro”?
Quem iria socorrer a criança engastalhada num galho fino da jabuticabeira senão a pobrezinha iria cair e morreria com certeza no chão duro debaixo do tal pé de jabuticaba madurinha e como gosto de chupar as tais em dezembro quando cai a chuva e as adocica mais e mais. Não carece dizer outro nome já que se trata do mesmo JOÃO.
Um dia a ele perguntei qual o seu único defeito amigo João?
Ele me respondeu humildemente desse jeitim desajeitado: “bondade demais”.
De verdade sei que, se tem pessoa pra lá de boa não precisa ir longe, vai na casa do JOÃO.
Um feio dia, não sei quando e não me lembro em que mês e ano aconteceu.
Apareceu do nada, por aquelas bandas um sujeito metido à besta redonda não sei de onde veio e nem pra adonde vai.
O tal veio montado num carrão grandão todo empoeirado pela poeira da estrada esburacada que vem da cidade a esse nosso rincão.
Parece que ele estava perdido, sem rumo o mal agradecido.
Bem vestido numa fatiota engomada, um terninho Armani, cujo preço era mais salgado que água do mar.
Apeou justo na porteira aberta da rocinha do meu amigo várias vezes citado dantes, não carece repetir que era o mesmo JOÃO.
Como por aquelas bandas não tinha campainha, interfone, nem câmera para ver quem ali estava. O tal sujeito metido a ser a melhor cachaça do botequim bateu suas mãos limpinhas e lisinhas a fim de se anunciar.
JOÃO, com suas mãos mais sujinhas que bunda de nenê fedendo a fraldas com cheio de creolina aquela hora deu as caras.
O tal que veio da cidade, se perdeu na encruzilhada que não leva a nada, convencido de sua ótima formação em medicina, especialista numa lista enorme de títulos e subtítulos. Anunciou-se ao JOÃO, meu amigão, como sendo o pós doutor fulano de tal. Médico titular professor da Universidade de Certa idade, ora em Boston, Massachusetts, outra hora em Chicago Ili e nóis?
JOÃO, todo gentil, lavou suas mãos sujinhas, secou-as na barra de sua camisa mais suja ainda e cumprimentou o tal sujeito fazendo mesuras e rapapés, com essa prosa mais que boa.
“E daí? Vosmecê sabe carpir mato? Identificar qual carrapato te mordeu? Conhece meu primo Cabrito? Sabe que ele mata cascavel no grito? E por que o leite sai branquinho das tetas de uma vaca preta? E ainda a razão de o tico tico fazer seu belo ninho e outro passarinho aproveitar a deixa e criar seus filhotinhos no mesmo ninho e que ele se chama pássaro preto? Vai se catar meu não amigo metido! Volta pra Bosta que te pariu. Tchau e bença bandido!”
Não sei se o cara voltou pra adonde veio, e daí?