As confissões de uma avó desiludida

Naquela manhã ensolarada de começo de maio, já chegando o dia das mães. Tenho as avós como mães ao quadrado.  Dona Maroca acordou angustiada sem saber ao certo qual seria a razão.

Tudo parecia ir muito bem com sua pessoa. Se existe alguém melhor que ela ainda não fui apresentado.

Mãe extremada, avó que só faltava chorar pelo seu único neto de nome bem parecido ao dela já que era seu xodozinho. Ela Maroca ele Maroquinho que deveria se chamar Marquinho erroneamente assim batizado dado ao estado de embriaguês que estava o oficial de registros do cartório de nascimentos.

Ela tudo fazia tanto pelos filhos e mais ainda pelo seu netinho amado.

Dona Maroca satisfazia-lhe todas as vontades, até aquelas indevidas.

Desde os sete aninhos Maroquinho andava em más companhias. Cabulava aulas dizendo que ia ao campinho cambeta para jogar futebol. Dona Maroca fazia as vezes de avó, mãe e pai também pois Maroquinho se tinha pai nem sabia quem.

Era ela quem lhe dava, além de bons conselhos, comprava material escolar, uniformes que a escola pedia, e aplaudia quando o menino sem juízo mostrava a ela o boletim com notas altas que nem eram dele e sim de um colega o qual lhe dava cola em troco de alguns trocados que sua vó lhe dava para comprar merenda.

Aos sete completos Maroquinho já era viciado em primeiro lugar numa droga que dizem ser o trampolim para outras de maior poder de prejuízo. A seguir o garoto desnorteado experimentou pedras de crack e daí a cocaína não pensou duas vezes.

Para comprar drogas Maroquinho de começo afanava tudo que lhe passasse em mãos. Uma das vezes foi pego em flagrante delito roubando relógios numa relojoaria. Foi preso e solto no dia seguinte por ser menor infrator.

Aos oito parou de roubar com receio da policia por ter uma folha corrida de mais de sete léguas de lonjura. E foi então que tirava tudo da casa da dona Maroca e vendia a preços vis para comprar drogas.

Foi no mês entrante que dona Maroca o recebeu em casa já bem adoentada.

Olheiras profundas recostada numa cadeira de encosto alto. Aspecto de doente terminal a um passo da extrema unção.

Maroquinho entrou naquela casa pé ante pé para não ser notado levando nos costados uma mochila vazia e de bom tamanho.

A residência da dona Maroca era de dois pavimentos. Uma escada de dez degraus levava ao andar de cima.

Maroquinho, sozinho dessa vez, afanou tudo de valor no andar primeiro e encheu sua mochila pela metade.

Quando chegou ao andar superior fez um barulhinho que foi notado por sua avó.

O encontro entre os dois não foi nada amigável como de outras vezes.

Dona Maroca de boba nada tinha. Esperta como sói elazinha.

Em estado lastimável na cama, já com oxigênio para respirar melhor. Foi esse o monólogo onde só ela dizia: “meu netinho querido. Bem sabes que tudo tenho feito pra que você se dê bem na vida. Eu lhe tenho dado o melhor que lhe pude dar. Vês essas rugas que moram em minha face desde que você veio morar comigo? Elas não nasceram por um acaso e sim quando te tirei da cadeia pela vez primeira. Enxergas esses olhos encovados e profundos que tanto choraram por ti? Eles estão assim devido as noites indormidas que te esperei até tarde e tu não chegastes. Olha para as minhas mãos caludas e sem viço. Elas perderam o viço e a juventude desde que tive de trabalhar em dobro pra te sustentar dado ao seu pai omisso. Admira meus cabelos ralos e brancos desbotados. Eles ficaram assim pois não tive tempo de cuidar deles devido ao tempo que me dediquei a você neto ingrato. Vê se enxerga minha vista cansada de tanto tentar te ensinar as lições de casa e você não quis aprender moleque. Observa agora como me encontro doente e angustiada. Fiquei desse jeito por sua causa menino sem jeito. Se estou enferma, a beira da morte só culpo a você essa pessoinha a quem dei tudo de mim e você retribuiu desse jeito ladrãozinho viciado. Sei que logo irei partir. Você era pra mim a única razão de estar viva. Agora, vendo o que você se tornou não mais tenho nada e só me resta sumir”.

No dia seguinte dona Maroca desapareceu como poeira some no ar. Dizem por lá que viram uma senhora linda, vestida numa camisola branquinha avoar pro céu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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