” Vó! Não quero ficar velho não”…

Hoje, nesse feriado de primeiro de maio, dia de quem trabalha e pouco leva de rendimentos pra casa como a maioria de nossos concidadãos brasileiros, não estendo esse feriado aos políticos os quais não trabalham e não enxergam o suor despencando por suas faces felizes de tanto dinheiro que ganham sem nada fazer. Ao subir pelo elevador me olhei no espelho e a ele perguntei: “espelho espelhado de todos que aqui entram pensando subir ou descer. Você me acha velho, decrépito, idoso ou sênior ou qual palavra que indica maior idade que você conhece? Vês a minha disposição costumeira de seguir sempre a mesma rotina de aqui chegar e subir em sua cabine apertada e te pedir pra parar no sétimo andar? Ao te olhar na sua cara que pode ser feita em cacos caso não goste de você e lhe dê um murro raivoso na fuça”.

Como o espelho espelhudo e mudo não me deu resposta eu mesmo me dei: “ah! Não me acho tão idoso. Certo que já ultrapassei os sessenta em dezesseis números. No entanto ao chegar de uma corrida de mais de tantos quilômetros disposto a correr outro tantos não me sinto cansado sequer fatigado suando ou arfando rouco.  Não vejo rugas passarinhando por minha face lisinha nem pés de galinha ciscando perto do galinheiro dos meus olhos que enxergam mais que dantes. Escrevo bem mais que quando jovenzinho. Em mocinho não escrevia tanto. A inspiração agora me faz suspirar a cada manhã quando sai uma crônica ou conto que é lido e apreciado por tanta gente letrada ou quase incapacitada de entender tudo que escrevo. Meus cabelos que pensava ralearem quando mais jovem a minha querida Zaninha, experta e admirável enfermeira secretária quando me olha de cima diz: “doutor Paulo Rodarte- seus cabelos aqui no alto nascem fiozinhos em profusão. Sua calva desfaz-se a cada dia mais. Logo logo o senhor pode doar cabelos para fazer uma peruca a quem carece pois, a pessoinha, ao  ser tratada como portadora de câncer a calvície completa logo se instala. Finalizo minha prosa com o espelho dizendo isso- espelho espelho meu. O senhor conhece um contador de lorotas melhor que eu”? Até hoje não sei o que ele respondeu…

Naquela manhã linda de outono Juninho visitava a sua avozinha bem velhinha.

Era de seu costume isso fazer. Elezinho amava tanto a dona Julia, sem acento no u, pois fora ela quem o criara desde bebezinho,  pois sua mãezinha tinha de trabalhar fora de casa.

Juninho, agora aos quase cinco, era um menino observador e sonhador. Boa criancinha lindinha e mais ou menos tranquila. Mais ou menos podem perguntar a mim que sou o descritor. Mais ou menos sim já que Juninho por vezes se exalava quando falavam mal de sua querida avó. Esse meninozinho não era de levar ou trazer desaforos pra casa de sua amada vó.

Quantas incontáveis vezes e não foram poucas, que tiveram de separar brigas entre ele e garotinhos de sua rua bem maiorzinhos que Juninho era.

Ele entrava na casa de dona Julia todo arranhado, alquebrado, com a canelinha inchada de tantos chutes que lhe davam por ali e acolá.

Mas ele não tomava jeito por ser muito desajeitado e miudinho do tamainho exato de um pintor de rodapé que carecia de subir numa escada para terminar o serviço que nunca tinha fim e nem começava.

Naquela manhã outonal, um dia fresco, nem frio ao exagero nem quente ao destempero, Juninho acordou cedinho e foi à casa de sua avozinha dona Julia.

Sentia-se desconfortável naquele dia do trabalhador primeiro de maio. Era dia do seu aniversário de cinco aninhos.  Na sua morada nem um bolinho fizeram para que ele assoprasse suas cinco velinhas. Nem bolas coloridas para enfeitar a salinha.

Juninho não tocou a campainha.  Foi logo entrando na casa de sua avozinha dona Julia que cochilava sonolenta depois do almoço.

O menino comportado e de muita sensibilidade, dizia-se mais tarde ser escritor como eu digo ser.

Deparando-se com sua amava avozinha dormindo de olhos fechados (vocês já viram alguém dormir de olhos abertos)?

Admirado e consternado disse a si mesmo: “perdoa-me meu bom papai do céu. É muito triste ficar velho, tudinho na gente muda. Rugas e patas de galinhas ou de galos vicejam em nossa carinha que fica triste. Nem conseguimos andar direito, pois nossas pernas fraquejam e precisam muletas e andadores e cuidadores da gente. A vista da gente perde a visão paulatinamente e a audição não consegue adicionar mais nadica de nadinha. Todo mundo acha os velhos imundos. E eu pergunto: “por que não vai dar banho neles para deixá-los cheirosinhos e limpinhos”? Dá-me pena ver minha amada avozinha dona Julia velhinha desse jeito. Meu querido Paizinho do Céu, não desejo ficar velhinho assim. Permita-me fazer-lhe mais um pedido- deixe-me visitá-lo antes que envelheça muito”.

Anos a frente, quando Juninho completava sessenta, véspera de ser considerado  velho, durante a noite ele não mais abriu seus olhos e acordou no céu junto ao seu papai do céu e os anjos que ali moravam.

Dona Julia, avozinha do menino Juninho o esperava lá no alto e disse ao seu querido netinho: “meu amado neto predileto. Fui eu quem pediu ao senhor nosso Deus que não o deixasse ficar velho. E, antes que você completasse sessenta ele atendeu ao meu pedido deixando-o morar aqui juntinho da gente”.

Aquele aniversário do não mais garoto Juninho foi o melhor que ele já passou.  Pois nunca lhe deram uma festinha tão alegre como aquela no céu.

 

 

 

 

 

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