Aquele que ainda não recebeu essa pergunta e ficou em dúvida ao respondê-la penso ser não um ser humano pensante, sofredor, de uma sensibilidade tamanha pra mim maior ainda que o oceano inteiro que banha todos os continentes.
Eu, meninozinho ainda, ao derredor dos meus cinco aninhos, quando pra essa cidade que considero minha embora não tenha nascido por aqui, tive de me mudar junto aos meus amados pais. Bem me lembro de quando minha avozinha dona Belica, ao cuidar das rosas em seu jardim. Ao afofar a terra do canteiro onde as rosas moravam. Uma roseira espinhuda espetou seu dedo já idoso e dele saiu um sangue rubro. Foram essas as palavras não iradas saídas da boca da minha querida vozinha: “minha amada rosa cor de rosa. Não percebeu que seus espinhos espetaram meu dedinho? Logo o dedo que usei para afofar a terra onde você está plantada. A cada dia aqui estou acarinhando meu roseiral. E eu te pergunto minha rosa preferida. A qual considero a mais bela dentre todas as suas irmãs. Ou melhor essa pergunta faço a esse espinho que perfurou o meu dedinho. Vocezinho gosta mais dessa rosa linda ou da roseira onde essa rosa nasceu”?
Até hoje não sei qual a resposta dada pelo espinho. Creio eu que ele tenha respondido e eu não sabido: “amo as duas com a mesma intensidade. Dedico o mesmo amor o qual distribuo em duas metades iguais tanto à roseira quando a rosa que dela se formou”.
Assim tem sido a nossa vida. Se perguntarmos a nossa mãezinha qual dos filhos ela ama mais. Se ao primogênito ou ao segundo e ao terceiro, se porventura aqueles que vieram depois, ela com certeza diria: “amo todos com a mesma intensidade, independente da idade em que meus amados filhos se encontram. Não faço distinção entre um e outro. Amor de mãe não se divide ao meio nem a quarta ou quinta parte. Damos amor a quem precisa. Se for filho meu melhor ainda”.
Joãozinho cresceu sonhando, já na primeira infância, em ser médico doutor com doutorado.
Desde bem cedinho, molequinho ainda, elezinho já fazia poeminhas inspirados no cotidiano.
Menino esperto, bom aluno na escola, comportado a hora da aula. Quando a buzina soava estridente dizendo ser a hora do recreio Joãozinho ia ao pátio merendar. Ali, isolado dos outros coleguinhas pegava um guardanapinho branquinho e nele escrevia versinhos de raro lirismo. Um deles dizia assim: “Bilhete. Se tu me amas ama-me baixinho. Não grites de cima dos telhados. Deixa em paz os passarinhos. Deixa em paz a mim! Se me queres, enfim, tem de ser bem devagarinho, Amada, que a vida é breve, e o amor mais breve ainda”… (de Mario Quintana) não de Joãozinho.
Aquele bom menino cresceu dividido entre ser médico e escritor. Tinha dentro dele duas vocações; tanto a arte de curar e atenuar sofrimentos assim como a de retratar o cotidiano em belíssimas e inspiradas crônicas e poeminhas que falavam de amor.
Aos dezenove foi aprovado no vestibular de medicina. Aos vinte e cinco tornou-me médico generalista. Não parou por ai e continuou a estudar. Aos vinte e oito se fez urologista e aos trinta titulou-se doutor com doutorado e pós. Aos trinta continuava médico especialista em urologia já doutor com D maiúsculo. Foi então que se apaixonou por uma colega que amava livros e se dizia encantada com poetas e trovadores.
Doutor Joãozinho, que bem poderia se chamar Paulinho Rodarte. Dividido e iludido entre duas artes a de continuar médico urologista e escritor.
Um dia, já no mais tardar dos anos, já apartado da esposa, com a qual vivia a procura da felicidade e não a encontrava. Deparou-se com a outra que conheceu na faculdade de medicina, aquela de boca grande e traseiro maior ainda, com a qual se apaixonou e o romance não foi adiante.
Foram-se os anos e os desenganos maiores ainda.
Aquele doutor escrevinhador, ao se reencontrar com aquele amor do passado, o futuro incerto não deu conta de reuni-los de novo. Cada um tomou seu rumo em caminhos díspares.
Anos depois, novo reencontro à distância se deu. Ele já bem rodado em anos. Ela onze anos a menos, mas ainda bem conservada.
Numa viagem ao exterior a colega de faculdade, em outra companhia, dizendo-se feliz ao meio.
Vivendo luto pela perda de um filho amado. Numa mensagem que deixou escrita em letras recheadas de amor ela disse: “amo ainda você, tanto como médico e não sei se o amo mais como poeta escritor”.
E o doutor Joãozinho ou seria euzinho. A bela mulher mais de trinta acabou por dirimir sua dúvida com essa indagação pertinente: “de qual dos dois você gosta mais? Do médico ou o poeta escritor”?
A resposta não foi outra já que partiu de uma mulher inteligente: “como uma mãe que ama todos os filhos com o mesmo amor, não fazendo distinção entre o mais bonito ou o de menor beleza. Dedico o mesmo amor tanto ao médico como ao escritor. Um amor maduro que ainda me maltrata por não podermos mais estar juntos como gostaria. Já que você me perguntou de quem eu gosto mais te respondo: de tudo que você escreve e mais ainda de você doutor Joãozinho que bem poderia se chamar doutor Paulo Rodarte”.