Uma das grandes vantagens que nos confere a maior idade, além de outras não tão importantes, é o pouco tempo que temos pela frente e grandes momentos que deixamos atrás.
Já vivenciamos a primeira chegada do homem a lua e agora voltamos os olhos mais acostumados a modernidades a outra visita dele mesmo ao disco iluminado de rara beleza quando a lua se mostra cheia.
Na infância usávamos calças curtas seguras por suspensórios como nossos avós usavam. E hoje, nesses tempos bastante mudados, quando se deseja ficar elegante de novo os suspensórios se tornam acessórios indispensáveis segundo a moda de antigamente. Ainda me lembro do meu avozinho Rodartino Rodarte, que zanzava pelas ruas de nossa cidade bem elegante, com sua calça risca de giz, um paletó da mesma cor meio desbotado, pois creio ser o único do seu guarda roupa bem velho, uma camisa branca apensa a calça por um suspensório da cor de burro fogoso, nos pés uma sandália de couro marrom meio ralada na sola.
Já um cadinho mais tarde, na juventude quando usávamos cabelos compridos, bigodões bem nutridos , montávamos em lambretas a minha era branca e azul, a fim de fazermos bonito as garotas de antão. Namorávamos no rela do jardim. E quando o pai da mocinha chegava sem se anunciar, quando já na sua mãozinha pegávamos, desgrudávamos da sua mão. E fingíamos que nem nos conhecíamos quando já havíamos provado juntos a doçura de um beijinho na boca mais duradouro que os doze meses do ano que só iria terminar de agora a muitos meses.
Em crianças brincávamos de pique esconde com as nossas coleguinhas da escolinha. Não éramos nada inocentes, pois já tínhamos perdido a inocência com nossa babá que nos levava ao seu quartinho e ali aprendíamos que o crime já compensava.
Benditas férias de final de ano. Quando tínhamos a oportunidade de mostrar ao nosso pai as notas altas do nosso boletim. Mas quando ficávamos em recuperação era um desastre. Perdíamos a chance de passar o resto de dezembro, janeiro inteiro até começo de fevereiro na rocinha de nossas tias avós de nome Cachoeira, município de Perdões, terra dos Alvarengas e outras famílias mais.
No começo de nossa infância jogávamos peladas animadas com os garotos da minha rua. A bola rodava agitada por aquele campinho cambeta cujas traves eram feitas de bambu gigante que colhíamos ali pertinho na horta do Seu Albertinho. Aquele mesmo sujeito que, meio sem jeito nos enxotava de sua horta a pedradas e xingos recheados de nomes feios.
E como eram bons aqueles tempos…
A televisão engatinhava suas primeiras imagens descoloridas como as de hoje. A rede Globo nem existia e sim a TV Tupi. Tempos depois, no programa do Chacrinha, o que mais nos apetecia ver eram as pernas bem torneadas das Chacretes, lindas moçoilas que não eram tão despudoradas como as de agora.
Ai que saudades eu tenho daqueles tempos passados. Quando ainda podíamos visitar os vizinhos sem medo de atrapalhá-los já que era hora da novela das oito que nunca começa nessa hora. Os garotinhos de antão não passavam horas perdidas com seus celulares ligados entretidos em joguinhos nada educativos e a gente podia ajuntar os coleguinhas a porta de nossa casa sem ter medo de afanarem-nos a inocência que guardávamos a sete chaves e nem sabíamos onde estavam escondidas aquelas chaves.
Tenho saudades tamanhas das aranhas docinhas que fazia a nossa avozinha dona Belica. Esposa amada do meu avô Rodartino, aquele mesmo supra citado do suspensório e do caderninho onde ele anotava os nomes dos seus devedores. E ele, respeitado por toda cidade não era chamado de agiota, pois os juros que cobrava eram os mais em conta da praça.
Mugem e ruminam dentro de mim lembranças que até hoje me assediam e me fazer ter sede de tudo aquilo que passei na minha infância.
A hora de voltar todo lambuzado de barro a minha casa era sagrada. Não tinha choro nem vela nem uma fita amarela gravada com o nome dela. Se fizesse cara feia e mal criada a vara de marmelo fazia sulcos rasos nas minhas costas e eu nem podia chorar, pois o castigo naquele banquinho tipo que retireiro usa era meu sofá não preferido.
Sempre fui um bom aluno, em português brasileiro principalmente. Mas pelos números não tinha e ainda não tenho nenhum chamego. As ciências, a biologia, a geografia e a história faziam parte da minha grade curricular anos depois.
Aquele clube desportivo já foi grudado em mim quando ainda na piscina tinha um trampolim bem alto. Mas ele ainda faz parte do meu presente e espero fazer parte ainda por muito tempo mais. O velho trampolim, de onde pulei e rachei a testa, foi demolido e a piscina que era funda raseou e as águas agora estão aquecidas e bem servidas de raias olímpicas onde se forjam atletas da natação.
Hoje, aos setenta e seis janeiros espero outros fevereiros e outros incontáveis meses me vejam envelhecer. Já passei por tudo isso e mais algumas coisas desejo ver passar.
Mas não me canso em dizer e deixar escrito: tudo passa, a vida acaba ultrapassando e nos passando a frente. Mas vamos em frente levando as saudades dentro da gente…