A vida seria amara não fossem os adoçantes. Assim como seria bom colorir um dia cinzento usando as mãos de uma criança, e uma caixa de lápis de cores infinitas.
Que dia magnífico, depois de uma noite extremamente apetitosa vendo a chuva cair de mansinho do lado de fora da minha janela. Amanheceu esse derradeiro dia de março. Que antecede e cede lugar a abril. No despertar de mais um amanhã, que com certeza pra mim vai dar lugar a outros infindáveis amanhãs. O dia primeiro de abril não será um dia mentiroso. Pois tenho pra mim que a verdade e a igualdade devem prevalecer em nossa caminhada segura pelas ruelas de qualquer cidade. Que seja apenas um povoado recheado de sonhos bons. Ou até mesmo uma aldeia indígena perdida no meio do nada.
Tanta embromação, tamanha encheção de salsichas. Que ocês, voismeceis, que perdem seu precioso tempo passando os olhos sonolentos nos meus constantes lamentos. Podem a mim pedir: “por obséquio doutor das letras miúdas. Engorde ou engrandece suas letrinhas miudinhas. Eu num enxergo muito bem. Não vejo com meus oinhos além das entrelinhas como o senhor. Por favor meu estimado doutor do dedo indicador enxerido. Vai direto ao assunto pois tenho de ir trampar. E não fique por ai inquirindo a um e ao segundo se voismeceis podem me indicar um bom urologista nessa cidade ou noutra vizinha. A pessoinha educada, apressada e atarefada, acaba perdendo seu valoroso tempo e responde: “não sei não meu senhor. Não sou de aqui, vim de acolá. Por que sua indignissima pessoa não pede informação num nosocômio qualquer? Lá quem sabe poderiam lhe por a par do tal médico que o senhor procura”.
Essa pegadinha tenho feito não por despeito a muitos passantes. Para a maioria abro meu site-paulorodarte.com, e mostro a minha metade urologista e a outra escritor. Muitos aqui comparecem compadecidos da minha cara dura. E se tornam meus pacientes pacienciosamente.
Nada como passar bom humor aqueles mal humorados. Fingirmo-nos de palhaços nesse circo circunspecto da vida. Essa mesma vida que trata alguns com luvas macias de pelica e outros, menos afortunados, com a mão desenluvada, mal lavada, e por que não deixar escrito suja mesmo com os excrementos fétidos deixados sem dar descarga nas latrinas desse mundo imundo.
E o titulo? Já se esqueceram de ler mais no alto? O Tem Tudo e ao mesmo tempo nada tem.
Meu colega da medicina, um doutor graduado um ano antes da minha colação de grau.
Um baita especialista em moléstias das vistas. Com o qual anos antes já me consultei. Hoje minha oftalma é outra.
Ele foi o pioneiro na minha cidade na sua especialidade. Assim como euzinho sou.
O tal home enricou. Ficou tão ou mais rico e abastado que o tal Elon Musk com suas infinitas propriedades.
Em prédios altos fica difícil fazer a conta de quantos edifícios, lotes e apartamentos esse doutor tem.
Batizei-o de Tem Tudo esse profissional de uma lisura sem igual. Que aqui na minha cidade mora e tenho por mim que aqui mesmo nasceu.
O Tem Tudo tem tudo.
Riqueza e a dar aos pobres. Propriedades rurais nem sabe quantas tem. Dinheiro com ele pode nadar numa piscina igualzinha aquela que o Tio Patinhas nadava em notas de cem ou mais dólares. Suas posses são tanto ou mais altas que o edifício Burj Khalifa lá em Dubai. O Tem Tudo envelheceu um ano creio que os meus setenta e seis.
Perdeu o bem mais precioso que possuía- a saúde. Dado a sua impaciência e intransigência acabou por perder a esposa. Ele mora numa residência e ela noutra. Os filhos ainda o procuram e se ou encontram o Tem Tudo acaba por desencontrá-los.
Um dia desses o vi almoçando num restaurante. Ocupou uma mesa na própria companhia. Comeu com os olhos lacrimejantes um prato e o que estava dentro.
O Tem Tudo pagou a conta sem reclamar e dizer: “gostei muito da comida” à amável mocinha do caixa.
Embora o tenha cumprimentado ele nem ao menos retribuiu ao meu “bom dia colega”.
Saiu da casa de comidas pisando duro. Poder-se-ia dizer pisando em cachorro morto.
A vida tem dessas coisinhas miudinhas.
Num dia temos tudo. Nada nada nos sobra senão sete palmos de terra sobre nossa carcaça fedida.