Não tenho o direito

Com a idade chegando. Os anos cavalgando-nos os costados. A              velhice a indicar ser a hora de nossa despedida. Ainda nos resta a esperança de viver alguns anos amais. Desde que a saúde não nos deixe órfãos. Um dia chega a hora de nossa partida. Não na rodoviária onde minha pequena jornalista tomava o busão rumo ao Rio de Janeiro em busca de seu sonho doirado que, naqueles tempos de antão elazinha não sabia bem qual seria. E que hoje, anos depois, minha pequena jornalista engavetou seu diplominha e o trancou a sete chaves dentro do seu coraçãozinho que ela divide em partes desiguais entre mim e seu príncipe com muita sorte de tê-la ao seu lado. E com meus dois netinhos que hoje felizes da vida acompanham suas duas avozinhas numa viajem a Nova York. Que deve ter fim em mais alguns dias.

Direitos e deveres.  Direita e esquerda; ainda me lembro da ordem que se transformava em desordem que o sargento do tiro de guerra tentava impor a nós seus comandados.

Nós velhos, no meu caso prefiro que me chamem de tiozão gostoso.  Pois ainda não me sinto velho como um sapato destinado ao lixo, e nem a doação ninguém o aceita de bom agrado.

Nossos direitos são minimamente tomados com a devida seriedade em nossas comunidades.

Temos direito a um lugar privilegiado em transportes coletivos. No entanto dos entre tantos jovens ocupam nosso espaço. E conferem suas nádegas bundudas nos assentos a nós destinados. E nem sabem distinguir entre acento com c e o outro com dois ss.

A gente, tidos como idosos decrépitos vetustos. Deveríamos ser mais considerados. Mas quando a idade chega somos solenementemente descartados e preteridos pelos mais jovens. Que se esquecem que fomos nós que os ensinamos. E se não aprenderam azar deles mesmos.

Com a idade chegando os direitos se tornam mais e menos exigentes.

Agora os deveres escasseiam. E os direitos, homens que primam por andar direito, sãos preteridos por aqueles sem vergonhas que de um lado mostram uma cara. E doutro não são nada disso que desejam mostrar.

Agora penso não ter direito de a ela enganar.

Já fomos felizes mas, no presente a minha felicidade deve ter freios. Como um cavalo bravio, se pula cerca corre o risco de se engastalhar na cerca de arame farpado.

Já passamos horas, dias, meses até anos, em viagens idílicas por essas terras e no estrangeiro.

Sonhamos juntos mudar de ares. Ela continuaria a viver na capital.  E eu aqui mesmo tendo de morar debaixo da ponte, pois não tinha casa própria. E um dia disse, pensando nela e na outra: “a vida seria insustentável não fossem as mudanças.”

Eu não mudei a continuei aqui mesmo por puro comodismo. Daí me falta o direito de dizer a ela: “quer me ver de novo? Tens coragem de me rever algum dia”?

Não tenho o direito de enganá-la dizendo que o passado pode ser repassado a limpo. Por certo vai me faltar coragem que dantes não tive de me separar da minha esposa e viver ao seu lado por mais que tivesse vontade.

Não tenho o direito nem a intenção de inserir dentro dela mais ilusões. Um dia vivemos tempos gloriosos de encontros e reencontros que não deram em nada.  Uma paixão avassaladora nos consumia por inteiro. Foi com ela que atinei com a distinção entre amor de verdade e paixão. O amor não fenece com a obesidade. Não desaquece quando a idade vem. Nem ao menos sucumbe com a maior idade. E não desaparece quando a distância cuida de separar dois corpos. Já a paixão descarece de razão. É como um fogo que começa em achas de lenha pelas madrugadas e termina apagada durante uma noitada que nunca termina. Não há como tentar dar conselhos a paixão: “senhora paixão. Aquiete-se! Durma em paz se a você falta paz. Não se eternize,  pois,  a vida não é eterna. Fica calma que um dia você morre e vai ser enterrada”.

Não tenho o direito e sim o dever de dizer a ela: “não se iluda pois,  não tenho a pretensão de iludi-la novamente. O que passou deixou marcas profundas em nós dois. Mas é como uma tatuagem de henna que se apaga depois  de lavá-la em água. Não como a outra que dura pra sempre.

Não tenho o direito de dizer a ela: “me espera que um dia irei viver pra sempre junto a você”

Esse meu para sempre pode parecer enganoso já que o meu para sempre tem vida curta. E eu não desejo e não pretendo enganá-la de novo. Mesmo que ainda ame você.

Os meus direitos vão até onde meus deveres deveriam começar. E eu tenho o dever de avisá-la. Mesmo que nossa paixão ainda incendeie uma pilha de lenha. Essa aquecedora fogueira,  com o tempo, vai apagar…

 

 

 

 

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