Desconjuro

Até parece jurar duas vezes. Mas não é bem isso que o titulo enseja.

Esconjurar, da no mesmo que desconjurar, quer dizer agir em desagravo, desacatar, ofender alguém, e por ai vamos nós, entre tantos entretantos, tentando fazer entender a vocês o quanto a nossa língua é rica e opulenta. Tida e defendida por muitos como a última flor do Lácio inculta e bela.  Que se, atada a uma fita amarela fica mais linda ainda. Como diria um poeta que não sou.

Sabe-se, mais uma lição que passo a vocês, na minha especialidade Urologia. Que o planejamento familiar em nossos dias bicudos se torna mais e mais premente.

Não se admite criar mais filhos, que nos darão netos um dia, em número que não se pode educar e bem. As coisas andam pela hora da morte. Não se sabe o que vai ser da gente no dia seguinte. Nem se estaremos vivos e saudáveis. O emprego pode nos faltar, assim como a saúde pode estar abalada. Dai a necessidade de termos filhos a conta de darmos conta de criar. Senão a vaca vai pro brejo da desesperança morta. E a esperança que tínhamos acaba antes do nosso final.

Vários métodos de contracepção são conhecidos. Citam-se as pílulas anticoncepcionais dentre outros não cirúrgicos. A pílula do homem já existe no mercado. Seria ela um bom artifício?

A laqueadura é outra que a mulher pode lançar mão. Depois de algumas cesáreas ela pode ser feita. Sem custos adicionais desde que efetuada pelo sistema único de saúde.

Em nosso caso recomendo a vasectomia.  Um procedimento fácil e realizado na própria oficina de trabalho do especialista. A ligadura dos canais deferentes aos pares não leva mais que uns poucos minutos. E o paciente pode deixar a sala de cirurgia caminhando pelas próprias pernas.

A comprovação da infertilidade se da depois de um mês inteiro. Basta fazer um espermograma que vai constatar o óbito ou a ausência de espermatozóides viáveis.

Como visto e revisto volto a dizer. Não se deve ter filhos mais que o necessário. Pra mim dois é demais. Três passou da conta.

Cada um tem os filhos que merece. Mas meu amigo Aroldo teve mais que os merecidos.

No tempo presente já somam sete. Um novinho acabou de nascer.

São sete boquinhas famintas pra alimentar. Sete fraldinhas para trocar. Sete pessoinhas para educar. Haja paciência e grana.

Foi ontem que visitei a família. Eles se ajuntavam à mesa de comida.

O menorzinho recusava a papinha. A maiorzinha tentava dar de comer ao irmãozinho.

Era uma choradeira só em numero de sete chorões.

A pobre mãe, sem dormir desde o mês passado, descabelada tentava apaziguar a situação de conflito delirante. O desinfeliz pai tentou escapar pela porta dos fundos. Debalde, pois escorregou num balde cheio d’água suja. E foi ao chão.

Já era tarde das horas. Em torno das três. As crianças faziam lambança. Mais sujinhas que pau de galinheiro no piriri das galinhas chocas.

Já era tempo de levá-las a escola. Ajeitar as merendas na merendeira e tentar convencê-las, pelo cansaço, a vestir os uniformes.

Nesse ínterim já estava cansado só de olhar a cena de um filme de pura comédia americana. O pai exausto. A mãe, coitadinha, em prantos.

Foi aí que tive a desdita de recomendar a vasectomia ao desditoso pai.

Ele me olhou com olhos raivosos. Franziu o cenho.

E soltou os cachorros bravos na minha pessoinha enxerida.

“Ah! Seguido de outro ah mais duro ainda. Não me leve a mal. Mas pretendo ter mais uma ninhada de rebentos. Vou povoar esse mundo. Ainda faltam mais alguns chorões. Desconjuro sua idéia de jerico”.

Saí sem me despedir da turma. Depois de aprender mais uma lição.

Em boca fechada não entra moscas nem muriçocas. Melhor ficar calado sem dar opinião…

 

 

 

 

 

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