Enquanto eu puder

Nem sempre querer é poder.

Por vezes a gente deseja. Mas poder ter aquela coisa fica longe de acontecer.

Já quis muito ter mais idade. Agora, vendo minha juventude se perder na distância. Minha infância dizer adeus e não até logo. Já que meu desejo foi satisfeito não me sinto satisfeito em chegar aonde cheguei. Gostaria e muito de voltar atrás. Nem que seja por umas horas apenas. E dizer aos meus pais o quanto foi bom tê-los ao meu lado. Naquela casa, daquela rua onde passei minha infância e parte da mocidade. Onde aprendi que as boas amizades devemos guardá-las a sete chaves.  Pois um dia elas avoam a outras paragens. E não as encontramos mais.

Enquanto eu puder ficar por aqui não direi adeus aos meus amigos de hoje. Diria sim um até breve. Quem sabe vamos nos ajuntar naquela mesma pracinha. Assentados ao mesmo banco. Numa prosa gostosa falando de tudo um pouco.  Não deixando de fora aquelas garotas apetitosas as quais nos fizeram de trouxas. Já que não era pra gente que elas olhavam e sim para outros moleques mais ditosos que nós outros.

Enquanto estiver por aqui não irei a outro lugar. Vou ficar por aqui mesmo, nessa hora temprana. Dando vazão ao que me corrói as entranhas. Fazendo aquilo que mais aprecio qual seja escrever.

Enquanto puder estar vivo não incorrerei no risco de deixar de viver. Vou aproveitar ao máximo as derradeiras horas que tenho. Não deixarei meus amigos sem aquele abraço incontido. Jamais irei deixá-los ao desabrigo. E, se algum deles precisar de mim não irei faltar em ajudá-los. E, dentro das minhas possibilidades tudo farei para cultivar novas amizades.

Enquanto minhas forças permitirem estarei pronto a fazer meus desafetos mudarem de opinião. Não sou tão ruim como eles pensam. Acredito até que alguma coisinha boa guardo dentro de mim. Procurem não as piores. Já que, lá no fundo talvez encontrem algo de bom. Leiam meus escritos. Eles me desnudam por inteiro. Sou transparente como as águas límpidas do meu aquário. Ficciono apenas nos meus romances. Já que minhas crônicas são verdadeiras como eu tento ser.

Enquanto estiver por aqui não me procurem ali. É muito fácil me encontrar. Pelas manhãs madrugadas estou por aqui mesmo. Nesse edifício fácil de ser achado. Nesse sétimo andar de onde se pode ver parte do meu passado. E ele se mostra por inteiro nos meus textos que dele falam com saudades imorredouras.

Enquanto puder dizer o quanto me apraz viver vou continuar no mesmo caminho. Mas, se morto estiver, numa data ainda bem desconhecida. Se me permitirem dizer qual seria. A minha escolha não seria outra senão num trinta e um de fevereiro. De um ano por vir. Num século que ainda não veio.  Numa data distante como a terra do sol.

Enquanto puder conviver com pessoas de fino trato jamais irei tratá-las com descortesia. Já que gentileza atrai gestos carinhosos e tratamento igual.

Enquanto minhas forças permitirem jamais aposentar-me-ei. Vou continuar na mesma lida. Desdobrando-me em dois sendo apenas um. Um de mim ainda é médico. O segundo teima em se dizer escrevinhador.

Enquanto puder não irei deixar de querer.  Enquanto puder sonhar não vou deixar sonhos adormecerem. Já que eu durmo pouco e quase não sonho dormindo. Penso mais que sonho. E esses pensamentos múltiplos me fazem perder o sono.

Enquanto for capaz de pensar não irei deixar meus pensamentos avoarem pra longe. Guardá-los-ei aqui dentro. Dando-lhes formas novas em forma de escritos.

Enquanto puder e for capaz de exercer a medicina não me jubilarei. Espero por muitos anos mais. E que o dom da escrita não me abandone, jamais.

Enquanto puder dar o melhor de mim pretendo estar por aqui mesmo. E não me afastarei de vocês a não ser por um motivo impeditivo. Se me faltar inspiração talvez não escreva tanto. Se me faltar compaixão, por favor, lhes peço perdão. Se me faltar o chão me desequilibro e caio. Mas se me faltar saudade e não mais me lembrar do passado que me alijem de mim.

E, quando não mais puder caminhar sozinho. Retratar aquilo que me vai por dentro. Perder a confiança dos meus pacientes. Ai, nesse momento tempestuoso e tristonho. Não mais poderei dizer a vocês. Com minhas palavras escritas em milhares de crônicas. Um adeus e não um até logo. Já que não mais vou estar por aqui e nem por ali. E, se me procurarem nalgum lugar olhem pra cima que talvez me achem no céu ao lado dos meus pais…

 

 

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