Bota na conta das maritacas

Quando alguém te chamar de vaca não se ofenda.

Ruminantes, aqueles bichões que mastigam e guardam no rúmen o alimento antes de ser digerido. Além de serem dóceis e sossegados. Que pastejam no pasto seja ele raspado ou crescido se transformando num campo descampado verdinho como as asas das maritacas. Vacas não se fazem de rogadas. Não discutem com a gente como a nossa mulher quando se sente traída ao ver um par de chifres nascendo no alto da testa. Como não sabem distinguir entre um boi capado gordo de outro em plena forma de um rapagão malhado horas e outras horas numa academia de ginástica.

Já tive a audácia de perguntar a mulher de um amigo. Ao ver o casal dentro de um carro parado. A espera de o sinal de vermelho mudar ao verde. Não a conhecia,  em contrapartida ele era um velho conhecido. Num ímpeto a ele perguntei, admirando as grandes tetas que a mulher exibia no seu peito: “quantos litros de leite frio a senhora produz? Sei que na segunda ordenha a quantidade diminui”.

Voltei a minha casa sem saber o pepinão que deveria descascar. Fui mais uma vez processado. O casal queria fazer um acórdão de mais de cinco mil reais para me retratar. Fui ao banco dos réus sem saber a minha pena. Fiquei com pena de mim mesmo. Um doutor escrevinhador, mais rodado que pneu de caminhão há mais de um ano sem trocar pneus.  Vendo o sol nascer quadrado pelas grades do xilindró.

Tive muita sorte ao ser absolvido sob a alegação florida do meu causídico: “digníssimo senhor magistrado. Quando meu cliente desavisado soltou um mugido de vaca no ouvido da denunciante. Perguntando a ela essa pergunta pra lá de indiscreta- “quantos litros de leite a senhora da nas duas ordenhas. Ele não teve jamais a intenção de ofender a senhora.                 Pois pra ele chamar alguém de vaca nunca deveria ser um insulto. Já que meu cliente tem pelas ruminantes o maior apreço.”

Eu considero personas ingratas sim essas duas pragas que infestam a minha chácara.

Na minha rocinha elas pululam em bando ou grasnando frenéticas ou ainda saindo da represa famintas devorando tudo ao derredor.

Não existem abóboras que resistam aos seus dentes roedores. E nem fios de luz desencapados que não sejam devorados pelos bicos em alicate da maritacas.

Já fiz de tudo um cadinho para me ver livre dessas pragas daninhas.

Espalhei cercas de arame farpado em volta da represa. E as marditas capivaras continuaram a entrar no meu Solar Paulo da Rosa.

Acabei de chegar da minha amada rocinha. Fui de carona com o Juliano, entendedor de câmeras e outras modas mais. Lá já estavam o Pila e seu ajudante. Responsável técnico da internet muito boa rural que se chama Megaconect. E mais um batalhão de gente boa a dar um jeito na sujeira da minha piscina.

Estava sem internet desde quando o desdinho nasceu. Quem foi o causador do infausto ocorrido? Quem roeu os fios de luz por sobre a laje?

A conta me foi dada nessa tarde de segunda feira. Mais de um mil reais só para passar outro fio de luz acima da minha casa. A piscina suja não culpo às maritacas ou as capivaras. Nunca as vi se banhando na minha piscina.

Agora que os problemas foram equacionados. Que o Juliano me mandou a conta. Que o fidalgo Pila remendou os fios cortados pelos bicos das maritacas.

Quem vai pagar a conta dos prejuízos?

“Bota na conta das maritacas”. Falei eu agora mais tranquilo.

Deixe uma resposta