Como machuca a cabeça da gente fazer a cada dia tudo sempre igual.
A rotina se torna enfadonha como dormir num travesseiro sem fronha. Num colchão duro e desconfortável. Ou mal acompanhado de uma fulana que só pensa em dormir e nada do gostoso rala e rola.
Já disse e não me canso de repetir o escrito bem escrevinhado: “a vida seria insuportável não fossem as mudanças”.
Tem gente que muda de carro a cada ano. Troca um usando por um novinho em folha recém saído da fábrica e logo o arrebenta no primeiro poste por estar embriagado.
Já outros mudam de apartamento assim que elezinho fica prontinho. Mas tornam a se mudar pra uma casa mais espaçosa já que o apartamentinho mal cabe a sogra. A qual ronrona como um gato persa e ainda solta flatus durante a noite inteira e não há quem aguenta tamanha inconveniência. E o pobre do marido ofendido junta suas trouxas e leva embora tudo que tem. Menos a sogra que ali fica até quando um desavisado a levar.
Ontem tentei mudar a minha rotina. Decidido a não mais escrever crônicas já que elas são tantas que enchem de palavras esse meu pobre computador sofredor. E ainda por outro motivo que descrevo nessa horinha madrugada bem cedinho. Decidi me dedicar mais e mais, não menos, em continuar meu romance Ucrânia que está bem atrasadinho. Quase no comecinho. No parágrafo ontem escrito os protagonistas desse romance que tenho por mim vai ser um best seller. Melhor não contar com o ovo ainda no fiofó da galinha prestes a eclodir de dentro dele um pintinho amarelinho. Como ia escrevendo a heroína desse meu romance, uma ucraniana linda de nome Lyuba (que em ucraniano quer dizer amor). Apaixonada por um soldado russo desertor ao qual dei o nome de Dimitri. Encontram-se refugiados na Polônia até se mudarem, quem saberia dizer se pro Brasil. Dai em diante não sei o que vai acontecer. Volto a escrever Ucrânia assim que terminar mais esse texto.
Sábio dito esse que penso que alguém o escreveu deitado: “burro velho não muda o trote’.
E continua sua marcha não marchando e sim trotando.
E isso acontece comigo.
Acordo sempre a mesma hora. Não antes das quatro e no mais tardar as cinco. Pulo da cama sem pijama. Nesse calorão quem consegue dormir debaixo de grossas cobertas? Eu durmo pouco, peladinho com a mão fora do bolso.
Vou ao banheiro e me assento ao trono. Ali fico por uns minutinhos a espera de a minha rainha acordar. Se elazinha não acorda levanto-me do trono. Acordo a minha coroa também dita rainha. Escovo minha dentadura mole. Tenho a cautela de colar ela com Corega para que não se desgrude da minha boca. Já que considero os dentes a parte mais importante do corpo humano. Visto a mesma roupa de ontem dependurada no cabide. Olho de soslaio o relógio semi novo herança do meu estimado genro. E já vestido saio à rua com minha pasta costumeira dependurada ao meu ombro esguio. Hoje mudei minha rotina tendo de abrir o Edifício das Clinicas, pois o porteiro retireiro Sô Zito, de nome de verdade Sebastião, ainda não tinha aqui apeado. Decerto estava tirando leite branco da vaca preta. Aperreado com a mosquitada que comia a orelha da sua melhor vaca. Subi pelo mesmo elevador que de vez em sempre empaca no meio do caminho, embora não tenha uma pedra onde tropeçar. Aqui cheguei ao meu sétimo piso pisando duro. Abri a porteira da minha sala de número 701. Tomei meu cafezinho expresso devagarinho. Dei de comer aos meus peixinhos. Já havia mandado pra dentro quatro bananas madurinhas misturadas a meio liquidificador de leite e aquele pozinho branco de nome Malthodextrina.
Liguei meus dois computadores. Esse onde escrevo é o meu. O outro pertence a mim, mas é bem usado pela Zaninha.
E passo a escrever primeiro essa crônica. A seguir volto à Ucrânia em pensamento. Já que não a conheço em extensão geográfica e infelizmente naquele pais lindo e ao mesmo tempo invadido nunca pus meu par de tênis andador.
Mesmo que queira não consigo mudar a minha rotina. Ela tem sido a mesma de alguns anos pra aqui e agora.