Reclamar de quê?

Nunca fui um reclamão.

Meninozinho ainda, quando aquela linda bicicletinha de rodinhas amarelas me derrubou.

Levantei-me num ímpeto de joelhos ralados. Um galo na testa que me fez cantar de dor. Nem procurei alguém que me socorresse. Eu mesminho cuidei dos machucadinhos. Na testa pus uma bolsa de gelo. Na machucado do joelho esfreguei mertiolate. E um dia depois estava pontinho pra outra queda. Até aprender a andar de bicicleta sem as rodinhas.

Anos mais tarde. Já mocinho admirando as mocinhas no rela do jardim. Uma delas era a minha predileta. Mas ela não tinha olhos pra mim e sim pra outro garoto de maior altura. O que eu fiz sem reclamar. Passei a usar sapato de salto alto. Andava na ponta dos pés. Para impressionar a garota aprendi a andar de pernas de pau. Foi então que elazinha passou a ter olhos pra mim. Mas eu, na intenção de me fazer de difícil, daquela altura fiz de conta que não a avistava. Foi quando um passarinho fez cocô na minha cabeça. Das pernas de pau caí exatamente no colo daquela garotinha. Sabem quem reclamou da queda? Não fui eu e sim o pai dela. Que passava naquele momento pertinho da gente. E como foi custoso explicar aos dois que minha intenção não era aquela. E sim me fazer de gente grande. Pena que até hoje não passo de metro e mucado.

Reclamações pra mim não levam a lugar nenhum. Melhor tentar fazer da melhor maneira sem reclamar. Já que errar faz parte da nossa natureza. Mas errar duas vezes e não tentar corrigir o senão é sinal de asnice ou burrice, coisas que não faço questão de ser taxado.

Na roça não se tem o costume de reclamar. Tanto do tempo ou dos contratempos. Pra eles tanto faz como se desfez se a chuva cai ou retarda a acontecer. Um dia ela vem, no tempo certo com certeza.

Meu amigo Toninho, Zezinho o chamam os amigos chegados. Aquele que vive numa casa mais velha que sua avozinha falecida quando o Brasil foi descoberto.  Pra ele tanto faz se chove na hora certa ou num mês que ainda não chegou nesse ano que ainda está no seu começo.

Toninho acostumou-se a viver na própria companhia. “Eu me basto”. Diz ele dizendo ser bom na cozinha como aprendeu a lavar roupa. “Roupa suja se lava em casa”. Outro dito que ele fala se gabando de barriga encostada no tanquinho de lavar roupa.

Ele já teve uma péssima experiência em viver amasiado com uma moça que de moça não tinha nada. A tal Arlete era mais rodada que saia de passista de escola de samba que não usa anágua nem combinação. E como ela reclamava de tudo um cadinho. Nada pra ela servia. A cama era pequena demais. O fogão a lenha tinha bocas largas ao excesso.  A horta de couve não dava alfaces nem beterrabas. E o pior que Arlete reclamava era na hora de dormir. Toninho negava fogo. E roncava como capado gordo. A barriga dele era tão grande que fazia sombra ao andar de baixo.

Toninho, cansado de tantas reclamações, deu-lhe um bilhete vermelho e um pé na bunda que se ouviu a distância. E até hoje a malsinada Arlete reclama da falta de educação do Toninho. Quem nem sabe o que é isso. Já que mal sabe escrever as letras inda mais agora que vive sozinho e Deus.

Foi na semana passada que estive com ele. Toninho, para os íntimos Zezinho, estava fazendo a janta. Acendia a lenha do fogão a lenha. Fazia um calorão do lado de dentro da cozinha.

Ele assoprava as brasas daquele fogão improvisado. Uma fumaceira quase impedia de olhar a vista de dentro da cozinha.

Toninho nem se lixava. Pra ele tudo ia às mil fumaceiras. Já eu dei-me um tempinho para respirar do lado de fora.

Quando a fumaça se despediu pela janela com ele puxei prosa.

“Toninho. Tá tudo nos trinques? Tá te faltando alguma coisa? Tem ido ao médico? Você já passou dos entas. Está passando da hora de fazer exames. Aproveita que estou aqui. Não tem nenhuma reclamação a fazer”?

Toninho, assim que a fumaça se dissipou. E o calorão aumentou. Abriu a boca desdentada e murmurou num muxoxo meio esquisito.

“Reclamar de que se tenho de tudo. Uma casa para morar. Muito amor pra dar. Uma cama pra deitar. Saúde pra te emprestar. Comida sei fazer. Não me queixo da vida. Ela pode ser sofrida pra muitos. Mas pra mim ela tem sido de uma felicidade a dar aos outros. Não me falta nada. Reclamar não resolve. Melhor partir pra solução a viver na contravenção”.

Fui embora, já que era passada da hora, pensando no assunto. Toninho está coberto de razão.

Quem reclama muito acaba perdendo a razão.

 

 

 

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