Por vezes me pergunto: “qual seria o sentido da vida”?
Simplesmente deixar passar os anos. Trabalhar até que nossas forças permitam?
Deixar a infância de lado rumo ao desconhecido? Aprender na escola as primeiras lições de nossa querida professora? E de agora em diante tudo só vai depender da gente a procura da felicidade. Já que ela se deixa ver cada vez mais um cadinho. Ela se esconde em cada curva da estrada. Camuflada em momentos de introspecção e apatia.
A vida só tem sentido pra mim quando ainda podemos descobrir, nas brincadeiras de nossos netinhos. Toda a alegria de tê-los ao nosso lado. Quando, em seus cumpleanos, podemos ainda dar-lhes presentes. E nossa presença não incomoda. Pois ainda não somos um peso morto aqueles pelos quais fizemos tanto e agora pra eles tanto faz a nossa presença.
A vida pra mim ainda tem sentido quando sentimos a brisa fresca da primavera a assoprar em nossa face crispada pelos desenganos da vida. E ela perde o sentido quando a gente não sente nada mais que desilusões e desencantos.
A vida deve ser vivida quando ainda em saúde plena. Pra que viver mais se a audição não nos permite ouvir o canto dos bentevis. Nem nossas pernas nos suportam mais. Nem somos capazes de dar um passo adiante. E a mercê de cuidadores a nossa vida não é mais aquela de tempos idos. Quando podíamos decidir pra onde iríamos. E nem mais dizer a quem a gente amou tanto como ainda gostamos deles.
A vida perde o sentido quando nossos caminhos não podem mais ser percorridos. E precisamos de companhia para ir à esquina aonde íamos há tempos pretéritos. E agora, abengalados, trôpegos e solitários, ninguém mais tolera a nossa companhia. Já que nos tornamos velhos decrépitos. Gente as quais não se considera gente.
A vida pra se torna insípida e vazia no momento em que perdemos a simpatia pelas pessoas. Já que elas nos olham com olhares de indiferença. E agora, no ocaso de nossa existência, quando deveríamos ser merecedores de um descanso, atiram-nos a uma casa de idosos, a espera do instante final de nossa partida.
A vida perde o sentido quando não somos mais necessários. E nem podemos ajudar a quem precisa. E justamente a gente, quando mais precisamos de ajuda. Viram-nos a cara e nos dizem com olhares de asco: “vê se te enxerga velhinho. Cuidado ao atravessar a rua. Algum carro apressado pode te fazer conhecer o outro lado da vida”.
A vida deveria ter sentido quando ainda aptos a ensinar aos mais jovens. E não nos dizem que estamos ultrapassados. Nosso tempo se foi e não volta nunca mais.
A vida pra mim não termina na morte. Seria em verdade o final de nosso caminho? Apodrecermos na escuridão da terra? Sermos comida de germes e logo esquecidos?
Não, depois de tudo que vivemos. Das lágrimas derramadas. De paixões despertadas, de amores redivivos. Creio que merecemos um cadinho mais.
Não nos deixem no ostracismo nem no olvido do esquecimento. A vida nunca vai perder o sentido. Vivamos intensamente o hoje e o agora. Antes que o amanhã nos diga adeus.