Véia poética

Desde tenra idade Mariazinha sempre gostou de fazer poesias.

A princípio versinhos insossos. Que cadinho a cadinho se transformaram em prosas poéticas de real lirismo. E elazinha pouco a pouco se metamorfoseou numa linda borboleta de asas azuladas. Que não paravam de flor em flor.

Mariazinha crescia em inspiração. De olhinhos grudados ao cotidiano rico que se mostrava aos seus olhos.

Aos quinze aninhos foi vencedora num concurso de poesias. E teve seu primeiro livro editado. Sob o nome inspirado de “Indefinições”.

Ele bem retratava seus momentos. Passados na sua infância entremeada de alegria e tristeza.

Uma delas dizia assim: “solidão. Nossa, que solidão é essa, que me dói, que me corroi. Tenho tanto que fazer que nem sei por onde começar. E em que caminho trilhar… Medo? Pode ser. Quero colo… Aconchego, descanso, paz. Na minha alma atormentada, confusa e assustada…”

Mariazinha se tornou uma bela mulher. Sempre atormentada, não se sentia a vontade nesse mundo. Irrequieta sonhava. Devaneava entre um mundo real e outro ilusório. Titubeando entre a cruel realidade e a perfeição das cores que imaginava.

E elazinha mais a e mais insatisfeita consigo mesma temia por sua sanidade.

Um dia ela viu uma borboleta prestes a sair do casulo. Que linda metamorfose. Como é possível um bichinho tão feinho emergir de uma casinha meio escondida num galho de árvore ver sair dentro de si uma coisa tão linda.  Pena que ela vive tão pouco. E logo recomeça o ciclo de de novo ver a escuridão de uma nova morada.

Mariazinha desencantava-se paulatinamente com sua vidinha insossa. Não mais queria viver. Viver pra quê? A ela se indagava…

Não era aquela vida com que sonhava. Nela não havia poesia. Nem lugar para um poeta viver.

A crueldade do mundo a impressionava.  Não se falava noutra coisa senão em guerras, assaltos e bandalheiras. Não havia espaço para poetar. Cantar a vida em verso e prosa virou coisa démodé.

Mariazinha envelhecia.  Aturdida não via a hora de se despedir da vida.

Até que finalmente lhe veio a possibilidade de partir.

Era um final de tarde de primavera.  Um lindo dia a acordou. Mal teve tempo de bocejar e aspirar o ar fresco da manhã. Foi tomada por um desejo insano de morrer.

Ingeriu diversos medicamentos para dormir. Um sono profundo do qual não iria acordar.

Acordou num leito de hospital. Em suas veias tubos introduziam medicamentos. Sem poder dizer não Mariazinha pensava com ela mesma: “por favor, me deixem partir. Não mais quero viver essa vida por demais complicada pra mim”…

E aquela veinha poética, vendo entrar em sua veia medicamentos na intenção de salvar-lhe a vida. Acabou por ser convencida a se deixar viver novamente.

E um dos seus últimos poemas transcrevo agora.

“Dizer adeus. Como eu queria te dizer adeus…. Mesmo doendo lá. Bem no fundo do meu ser… Que corre atrás é de você… e se vá… Perdido sem saber por onde percorrer… tenho medo… tudo isso me assusta… e esse vazio me consome e me corrói aos poucos… até que… eu me transforme em pó… e o vento me leve pra longe… muito longe… onde ninguém mais se dê conta que eu existi… não deixei nada atrás… mas existi. Apenas e tão somente existi…”

 

 

 

 

 

 

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