Fui trocado por uma cadelinha

Nada mais gostoso do que ouvir essas palavrinhas que nos alegram os ouvidos: “vovô! Como eu gosto de você!”

E a gente pede que ele repita. Já que pouco escutamos e passamos a entender quase nada depois de tantos anos e desenganos. Essa frase tão bonita e doce de escutar.

A gente faz filhos e eles nos brindam com nossos netinhos. Pessoinhas que vão nos suceder uma vez em nossa despedida. Que mais e mais se avizinha. Quanto mais se vive mais se aprende. Pena que todo nosso aprendizado um dia vai ser sepultado junto com a gente.  Gente ingrata que nada sente por seus idosos.

Pelos cães sempre os tive como leais companheiros. Já os tive em dúzias esses gentis latidores. Nunca um deles me decepcionou. Tenho-os como amigos verdadeiros. Eles nunca abandonam seus donos. Mesmo que eles os tratem tão mal.

Vamos dar nomes aos meus estimados cães. Muitos já não fazem parte dessa vida e hoje ladram no céu. Começo pelo cãozinho de nome Rebel. Um peludinho pretinho, sem nenhum pedigree, que fez parte de minha infância quando morava naquela rua que daqui se deixa ver no clarume desse dia que amanheceu radiante. Ele morreu tentando me defender em criança da mordida de um canzarrão. Foi enterrado ali mesmo. E como chorei ao ver-lhe a carcaça ensanguentada. Resultado do heróico embate que o abateu.

Anos depois outro cãozinho fujão. De nome Willie o peraltinha.  Que comigo viveu naquela casona enorme. E dali, ao menor descuido meu se evadia. Já que aquele yorkshire bem nascido e pouco desenvolvido em metros. Nanico como ele sozinho. Um dia elezinho não mais voltou. De mala sem cuia decidiu viralatar pelas ruas.  E não mais foi encontrado.

Cães enormes fazem parte do meu passado. Alguns deles pouco viveram. Vitimas de pertinazes enfermidades. E em tenras idades foram morar no céu dos cães.

Um desses prestimosos latidores ainda o tenho em minhas lembranças. Dois deles merecem menções especiais.

O Paulo Rosa fez parte de um dos meus romances. O de nome Madest- A Moça Alegre do Sorriso Triste. Ele morava na minha rocinha. E ele, um Border Collie preto e branco. Tinha uma inteligência em muito superior a minha.

Já o infeliz Del Rey pouco tempo viveu em minha companhia. Aquele pastor alemão valente acabou por morrer na minha ausência numa palhada de cana sem que eu soubesse a razão do seu passamento.

Já hoje apenas dois deles são guardiões da minha casa na roça. O Clo e o Robson moram no meu paraíso e no meu coração.

E como me sinto bem na companhia delezinhos. Meus três netinhos- Theo, Gael e Dom fazem de mim o que eles querem e eu desejo.

No meio deles me remoço. Sinto-me aquela criancinha aprendendo a engatinhar.

Não me furto as suas traquinagens. Jogo bola com eles como se soubesse jogar. Assisto aos mesmos desenhos animados. Calo-me enquanto eles cochilam. Finjo-me de surdo cego e mudo para não ver ou escutar aos seus reclames.

Faço o que posso e não sou capaz para que eles sejam felizes. Torço para que, na minha ausência eles se tornem homens de bem.

Conto nos dedos a hora e dia que novamente esteja ao lado deles. E volto à casa do Theozinho e Donzinho disposto a me deixar envolver nos seus folguedos. Vez em sempre seus tablets me substituem. E volto a minha casa infeliz da vida.

De tempos pra cá eles estão ocupados com uma pessoinha recém nascida. Para a qual voltaram seus olhinhos que não mais pousam nos meus.

Elazinha tem sido motivo de suas brincadeirinhas. Não mais brincam comigo como dantes. Não mais me chamam vovô.  Nem se dão a minha presença. Quase não me pedem a bênção. Nem se assentam no meu colo e nem me fazem de montaria.

Fui trocado por uma cadelinha nanica de nome Tatá. Que mais parece uma viralatinha sem raça.

A melhor comidinha é reservada à Tatazinha. As suas melhores caricias são reservadas àquela naniquinha.  Que mais parece a uma ratinha desenxabida.

Que pena. Ainda me sinto aquele avozinho com quem brincavam meus três netinhos.

Em má hora me trocaram por aquela cadelinha que nem sabe quem sou eu.

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