Expressão corriqueira que denuncia tanto felizmente, que bom ou graças a Deus.
Usada para tentar expressar alivio, satisfação ou contentamento com algo acontecido no tempo presente.
Ainda bem digo eu. Que nos meus muitos anos nada de ruim tem me acontecido. Só tenho tido motivos para agradecimentos. Tanto pela família que ajuntei como pela outra onde me formei.
Ainda bem que tenho saúde a emprestar aos outros. A minha vai muito bem obrigado.
De vez em quando uma gripinha me tem assediado. Mas ela passa sem ser preciso tomar medicamentos. Gripe se cura e se trata com repouso e boa alimentação. Uma dosesinha de vitamina C tomada numa boa limonada. E não se esqueça de não passar seu resfriado a pessoa amada. Fica longe delazinha até que o vírus faça as malas e se mude. Pra bem longe e vai importunar outra freguesia.
Ainda bem que a idade não tem pesado nos meus ombros fortes. Ando como noticia ruim. Deixo minha caminhonete estacionada defronte ao meu prédio. De vez em quando ela arria a bateria. Não faz mal, faço uma chupeta e ela funciona como nova.
Ainda bem tenho disposição para trabalhar de bem cedinho ao nascer da lua. A medicina ainda me seduz. E a literatura cuida completar a lacuna que mora dentro de mim.
Ainda bem que tenho uma família a me dar suporte. Não fosse ela não sei o que seria de mim. Não é fácil tolerar meus repentes de insanidade. De vez em quando penso ser um Dom Quixote montado no seu cavalo Rocinante. Numa tentativa inglória de mudar o rumo do mundo. Sendo eu que preciso ser mudado.
Ainda bem que a escrita faz parte do meu eu. É ela que me acompanha nessas madrugadas frias. Ainda bem que a inspiração não me deixa. Sem ela estaria acampado num mato sem cachorro.
Ainda bem melhor que ainda não me dou por vencido. Nas derrotas caio e me levanto. Não tenho medo das doenças. Nem faço exames. Pra que procurar doenças se minha saúde se mostra em dia?
Ainda bem que na minha idade dizem que não pareço ter tantos anos. Não perguntes ao espelho, pois bem sabes a resposta malcriada: “se pensas ser ainda menino vai pensando. Um dia vais ver que não tens mais aquela idade de encantar meninas. E nem ao menos a balzaquianas caça maridos. Fica no seu canto. A espera da carruagem puxada por urubus que irão te levar ao campo santo”.
Ainda bem que as vaidades não me têm consumido. Contento-me com meus cabelos ralos e brancos nas têmporas. Com minha barriga quase impedindo que enxergue o andar de baixo.
Ainda bem que não tenho mais a pretensão de ficar rico. Se ganhar mais meu caixão não vai caber tantos dividendos.
Ainda bem que tenho onde me encostar. Que não seja na cama onde durmo um cadinho. E sim nos braços da mulher amada.
Ainda bem que meu fôlego me permite andar sem resfolegar. Continue sua caminhada homem. Graças às pernas estou de bem comigo.
Ainda bem que não tenho do que me lastimar. Se me queixo podem pensar que meus queixumes serão por razões desconhecidas.
Ainda bem que escrevo o que minha inspiração dita. Se invento não minto. Simplesmente procuro dar cores às paisagens opacas. Tinto a natureza com as cores que me seduzem.
Ainda bem que a cada dia renovo meus pensamentos. Melhor pensar e sonhar. A não pensar e ver morrer sonhos.