“Lembra-se de mim doutor?”

Uma das grandes vantagens de atingir mais idade, dentre tantas que a mim ocorrem, são as incontáveis lembranças que me assediam.

Ainda me lembro do meu primeiro aniversário. Tenho cá comigo o convite que trás minha fotografia em preto e branco. Eu sorrindo sem dizer nada. E uns dizeres que lembravam aos convidados a data exata do meu cumpleanos- sete de dezembro.

Lembro-me ainda de alguns convivas. Não irei listá-los todos, pois tenho receio de me esquecer de alguns. Meus pais com certeza estavam presentes. Até hoje, embora apenas nas minhas lembranças eles moram.

Recordo-me ainda do primeiro natal passado naquela casa que hoje se transformou em lembranças jamais esquecidas. Na véspera quase não preguei os olhos ávido por desembrulhar aqueles pacotes grandões. Num deles se escondia uma linda bicicletinha de rodinhas amarelas. Nunca havia andado numa delas. Levei tombos e me levantei. Galos se formaram na minha testa ancha. E esses galos não cantavam e desinchavam depois de um beijinho açucarado de minha querida mãe.

Lembro-me da minha primeira namorada. Que me foi tirada por um amigo que me deixou a ver navios no porto seco da desilusão.

Não me esqueço da felicidade que me inundou o coração. Ao receber o diploma do curso primário. O boletim só mostrava notas altas. Os dez pipocavam de cima abaixo. Fora uns sete e meio na matemática. Que em absoluto não davam conta de diminuir minha alegria imensa.

Lembro-me com saudades de quando, naquele ano distante de um mil novecentos e setenta e quatro, graduei-me em medicina. Lembro-me ainda de quando na minha Lavras querida aqui apeei. Trazendo da Espanha as últimas novidades da especialidade, a urologia, que me acompanha até hoje. Espero por muitos anos mais.

De tempos pra cá escrever tornou-se parte indivisível de mim. Durmo pensando no tema a ser posto no papel no dia seguinte.  Acordo com ele já prontinho a ser digitado.

Hoje me divido em duas metades. Metade de mim ainda é médico. A outra pensa diuturnamente em ser escritor. As duas metades se completam harmoniosamente.

Escrever a medicar são partes uníssonas e afinadas. Uma não vive sem a outra, se completam.

Noutro dia, não sei quando foi. Talvez numa corrida louca pelas estradas vicinais. Acabei parando numa casinha tosca. Era um dia de forte calor. Parei à porta daquela casa. Pedi água para saciar a minha sede.

Quem mo atendeu foi um senhor. Cabelos tintos em neve. Pele da face sulcada pelos anos.

Ele me reconheceu de pronto. Eu não.

“Lembra-se de mim doutor”?

“Foi em um mil novecentos e setenta e seis que nos conhecemos. Estava eu cumprindo pena na cadeia da nossa cidade. Tenho até hoje seu livro o Mundo das Sombras em mãos. O capitulo dedicado a minha pessoa se intitula o Mauricinho da Cadeia. Creio ter sido um dos primeiros entrevistados pelo senhor. Estava fazendo faxina no Inferno. Esse era o nome que o senhor deu ao espaço onde ocupávamos. Estava eu incumbido de fazer faxina e distribuir marmitas aos outros internos. Com a nossa cela aberta o senhor nos visitou. Fomos amáveis ao recebê-lo. Estava enquadrado no artigo 12 (ameaça com violência contra a mulher). Havia deixado o emprego como vendedor e ainda recebia parte do meu salário o que me permitia manter um bom plano de saúde. Não usava algemas e sofria uma certa regalia por ser preso de boa instrução e bom comportamento. O senhor já me atendeu no seu consultório. Não se lembra? Era uma consulta de rotina. Não tinha nada e queria apenas passear. Os guardas da cadeia eram meus chapas. Tratavam-me muito bem. Cumpri minha pena e aqui estou. Morando nessa casinha onde me regenerei totalmente. Tenho dois filhos e três netinhos. Não me esqueço do lançamento do seu Mundo das Sombras no pátio da cadeia. Foi no lugar reservado ao nosso banho de sol, não se lembra”?

Saciei minha sede num belo copo d’água que ele me ofertou. E voltei à cidade correndo ainda mais.

Agora mesmo, relendo meu Mundo das Sombras, lembrei-me do Mauricinho da Cadeia. E dos outros detentos naquela época enjaulados como bestas feras. Espero que todos eles se redimam. E não retornem ao crime.

Relendo meu livro intitulado o Mundo das Sombras, de repente a escuridão desse dia fez-se a luz.

 

Deixe uma resposta