Para sonhar basta fechar os olhos

Raras vezes, quase nunca, de olhos fechados, noite adentro sonho.

Tenho meu sono encurtado depois de certa idade. Na cama me encosto não antes nem depois das nove e meia. Assisto ao noticiário da TV. Uso debalde o controle remoto a procura de noticias mais alvissareiras. Mas só vejo pela mídia repleta de sangue, violência, assaltos a mão armada ou sem armas empunhadas, aquelas que versam sobre corrupção. Desmandos nas esferas federais e por aqui mesmo. Gente morrendo de fome por falta de amparo.  Andando pelas ruas vendo lojas vazias a espera de possíveis clientes que só consomem fármacos e entram em supermercados lotados. Deixando o comércio em crise a espera de dias melhores.

Penso e repenso mais que sonho.  Penso um dia me tornar um escritor reconhecido. Unzinho que manda suas produções literárias a uma editora que aceita de bom agrado editar seus livros. Ou aqueloutro que deixa seu derradeiro livro numa casa livreira e de repente volta a essa livraria e não se surpreende com a prateleira onde deixou sua obra a espera de outros livros que serão vendidos facilmente como se vende pipoca numa sessão de cinema.

Meus sonhos hoje são descoloridos. A maior parte deles são acinzentados.  O sol não adentra em permeio a eles. Imperam nos meus sonhos apenas pesadelos.

Tenho o hábito de andar pelas ruas usando o que tenho de melhor fora meu cérebro. Podem me perguntar o que seria. E eu não me acanho em responder: “são as minhas pernas e por debaixo delas meus sofredores pés”.

Além de caminhar bastante, dantes corria mais, com meu celular no bolso e minha bolsa onde guardo livros dependurada ao pescoço. Paro com um, falo com outro. Pergunto a um e ao outro se me conhecem. Se não mostro quem sou através do meu site-paulorodarte.com.

Foi ontem o sucedido. Uma quinta feira movimentada e muito proveitosa pra mim.

Pela manhã fui a uma podóloga a fim de tratar meus pezinhos judiados. De lá saí mais aliviado. Pezinhos bem tratados e um livro vendido.

Subindo a rua, em direção a parte sul da cidade. Direcionei minhas pernas a uma loja vendedora de materiais de construção a preços convidativos.  Dessa feita não iria comprar nada. Apenas na intenção de receber um dinheirinho prometido por um dos donos dessa bem conceituada loja. Um dos filhos do meu querido amigo Marcão Canela Grossa. Que recepção cordial e gentil ali recebi. Fred, do mesmo pré nome do meu irmão. Fez-me, não sei se merecedor, de um dinheirinho a mais para poder publicar minha coletânea de crônicas de nome O Canto das Cigarras. Espero ser do agrado daqueles que a comprarem.

Voltei a andar pelas ruas dessa feita de cima pra baixo.

Parei num mercadinho vizinho à funerária do meu amigo Gilney.  Não perguntei a ele se meu ataúde estava a minha espera. No simpático mercado comprei três abacaxis docinhos e duas dúzias de bananas quase maduras. Paguei em espécie e pena.  Não tinha mais livros a barganhar com a dona.

Levando nos braços aquela carga não muito leve e não bastante pesada que não a pudesse carregar, pertinho de um colégio estadual meus olhos enxergadores viram um menininho em companhia de sua presumível mãezinha.

Não sei a razão, com ele puxei prosa. Algumas pessoinhas me atraem como abelhas sugando o néctar das flores.

Não tinha a intenção de vender livros a ele ou a sua mãe. E sim de conhecer de perto a sua história.

Que menininho simpático e inteligente Juninho era.

De começo perguntei seu nomezinho.

Elezinho, a principio assustado por não me conhecer. Incentivado a falar mais alto por sua zelosa mãe. Respondeu-me com seus olhinhos claros e inquiridores: “meu nome é Junior, mas na escola me chamam de Juninho.”

De antemão já sabia que nossa prosa iria se alongar por horas e outras se eu quisesse e pudesse.

“Juninho, quantos anos você tem? O que você quer ser quando crescer? Apenas mais um menino grande”?

Elezinho, já mais a vontade, parecia que já confiava em mim, me respondeu: “senhor doutor especialista em urologia. Eu quero ser, além de mais crescidinho. Uma estrelinha que vai morar no céu a fazer companhia as minha irmãs. Quando olho pro alto, durante as noites escuras. E vejo estrelinhas piscantes a enfeitarem a via láctea me dá vontade de ser uma delas. Fecho meus olhinhos e me imagino lá em cima. Só não sei qual vai ser meu nome estrela. O senhor saberia me dizer?”

Deixei Juninho ir embora com a sua mãe.

Nessa noite que inda pouquinho se tornou numa linda madrugada tive um sonho colorido.

Durante o sono olhei pro céu. Não sei se acordado ou com sono pesado.

Admirei as estrelas. Uma delazinhas, bem pequenininha, a mais brilhosa e sorridente de todas elas olhou pra mim e disse baixinho. Dei a ela o nome de Estrelinha Junia.

“Meu querido doutor Paulo Rodarte. Lembra-se de mim? Sou o menino Juninho. Aquele mesmo que o senhor encontrou na rua um dia desses. Eu não lhe disse que gostaria de ser uma estrelinha e me juntar as minhas irmãs? E aqui estou a enfeitar os céus com minha luzinha piscante.”

Verdade de verdade. Para sonhar basta fechar os olhos.

 

 

 

 

 

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