Entre comer e passar fome prefiro a primeira opção.
No entando dá pena assistir, durante as nossas idas e vindas, pelas ruas de nossa cidade, mães com filhos nos braços a esmolar as sobras das migalhas.
Pedintes à porta de bancos a implorar por uma moedinha qualquer.
O bastante conhecido Ai Ai suplicando por um tostão de um real. Se possível for.
Sem tetos dormindo por baixo de pontes e viadutos.
Considero prioridade do novo governante tentar mitigar a fome e resolver, em parte, o desemprego marcante que as estatísticas apontam.
Como também considero prioridade máxima colocar bandidos onde deveriam estar. E como prioridade acho não inserir detentos não endinheirados com aqueles de colarinho branco. Pois os segundos não esquentam cadeia. Conquanto os demais mofam em celas lotadas.
Da mesma maneira considero de máxima prioridade terminar com as filas imensas a cata de um atendimento médico. Pois a saúde é o nosso bem mais precioso que uma pérola negra escondida numa ostra no fundo do mar.
Basta de lenga lenga. Ou de encher linguiça como diria o meu avozinho Rodartino Rodarte.
E vamos ao encontro do assunto.
Há mais de quarenta longos anos trafego por aquela estradinha de pouco mais de sete quilômetros que separa a minha rocinha recém arrendada da linda cidade de Ijaci.
Antes, tempos idos de agora, aquela estradinha de terra não tinha como cartão de visitas esse monte de buracos. Não nos oferecia grandes transtornos quando por ali passávamos. E apenas vacas na estrada paravam nossos carros.
No dia de hoje, dezessete de janeiro, fui cedo a minha roça.
Na minha casa beira represa Tom Zé e Zé Augusto roçavam e rastelavam o meu gramado.
O buraco do silo já estava repleto de milho picado. Comida a dar aos meus cavalos que pastejavam num pastinho perto.
Meio desiludido com a precariedade da estrada passei uma mensagem via zap ao secretário de obras da linda Ijaci.
Com o seguinte teor: “meu caro futuro prefeito. Sei que você é uma pessoa mais que responsável. Que sempre atende. Dentro das possiblidades aos meus reclames. Será que é viável. Com esta estiagem que se faz presente. Dar um jeitinho na nossa estrada”?
E ele prontamente respondeu: “dá um tempo meu amigo doutor escritor. Estou sem material. A moafa com esta chuvarada está difícil de carregar. A chuva me tem feito sofrer muito. A malha urbana da minha cidade está em estado periclitante. Preciso antes dar uma limpeza em Ijaci. Aguarde mais um pouco”.
Voltei à Lavras pela mesma estrada. Quase quebrei o eixo traseiro da minha Orock semi nova.
Cai num buracão de fazer inveja a qualquer cratera lunar. Só não atropelei uma vaca do fazendeiro Mazico por pura sorte minha não dela.
A produção dos pequenos sitiantes não escoa. As roças de milho carecem de ser picadas e jogadas na vala própria.
Pensando, de cabeça fria, mesmo neste calorão verãozento.
Vamos estabelecer prioridades.
O que tem mais premência? As estradas vicinais ou a beleza do jardim central de Ijaci? Ou o asfalto quase perfeito que calça as suas belas ruas e avenidas?
Pra mim o pobre e mourejador homem do campo merece ser ouvido em primeiro lugar.
Eles só querem ver o seu milho encher as feiras livres das cidades. E os seus ovos caipiras serem comprados antes de virarem ovos chocos.
Na minha modesta opinião as obras nas estradas rurais são prioritárias. As ruas asfaltadas de sua cidade podem muito bem esperar a chuva serenar.