Gostaria de saber a sua opinião

A muitos só lhe interessam a própria.

Já eu, ao acordar, sempre indago ao espelho: “espelho, espelho meu. Existe alguém. Que recém completou setenta e três anos no último sete de dezembro. Que pensa ter apenas seis ou sete aninhos?”

E ele responde com a superfície borrada: “você enlouqueceu Paulo Rodarte? Pode ser que você pense ser menino. Mas olha bem pra mim. E as rugas que passarinham por sua face? E a papada que seu netinho Dom o intimou a espichar um cadiquinho? E o sulco naso labial que carece ser atenuado? E as cãs lhe enfeitam as têmporas? E os pés de galinhas que ciscam ao redor dos seus olhos mortiços? Nada lhe dizem? Vê se te acha. Numa casa de idosos qualquer talvez você encontre sua verdadeira identidade.”

Eu nada tenho a dizer em resposta àquela superfície alcagueta e mal educada.

Mas ouvir de outrem a opinião sobre nossa pessoa não só se trata de bom senso como desejo de melhorarmos o nosso interior. Já que o exterior em verdade mudou. Como a vida seria insustentável não fossem as mudanças. Pra pior ou menos ruim. No meu caso penso ser para melhor.

No meu derradeiro livro de crônicas. Intitulado Leia com meus olhos. Muitos cidadãos brasileiros já passaram os olhos em suas letras miúdas. Na primeira orelha fiz questão de inserir uma fotografia minha aos vinte e oito anos. Estava eu becado. Com lindas madeixas negras a caírem sobre meus ombros. Com um lindo bigode também negro por sobre meus lábios finos. Um par de sobrolhos não como as tenho agora. Parecendo duas taturanas cachorrinhas. Um ar de sonhador que ainda sonha sonhos não tão coloridos.

Quando tento mostrar aquele livro a algum possível comprador começo por esta pergunta: “olha como eu era bonito quando me graduei em medicina”? Na outra orelha. O escrito finda. Outra fotografia da minha pessoa. Nos anos de agora. Usando óculos de grau e pouco ou nenhures cabelo. É quando indago ao pretenso comprador: “como eu estou no tempo presente? Melhor ou menos pior”?

A resposta dele pra mim conta. E muito.

Daí a importância que dou sobre a opinião que fazem de minha pessoa.

Se em verdade sou um escritor de qualidade acima da média? 0u um reles deitador de letras no papel. Que não faz falta nenhuma no mercado editorial brasileiro ou mundano.

Se em verdade acham que sou um bom vendedor de livros ou deveria ir com menos sede ao pote. Já que por vezes me atrevo a interpelar desconhecidos na rua na intenção de mostrar que além de urologista ainda escrevo sobre literatura.

Mais uma questão indago aos passantes. “Quantos anus o senhor tem”?

Se ele responde ter setenta logo alerto-o sobre a minha especialidade dizendo: “o senhor tem apenas um anus. Anos o senhor pode ter setenta.  Imagine a minha dificuldade em encontrar setenta orifícios para enfiar meu dedo no exame da próstata”.

Se ele sorri tudo bem. Neste momento ofereço-lhe um dos meus livros. Se ele compra que mal que faz? Se não também me satisfaz.

A opinião que fazem de mim a mim importa sim.

Se por acaso não me conhecem me apresento: sou um médico urologista escritor. Sendo mais ou menos fluente em seis idiomas. Nascido em Boa Esperança. Mas aos cinco anos mudamo-nos para aquela rua que daqui se avista pelos fundos. A Costa Pereira de número um cinco dois. Casa que hoje não existe mais a não ser boas lembranças quando ali morava junto aos meus pais e meus dois irmãos.

Outra opinião que gostaria de saber sobre mim é se me consideram bom esculápio. Não ainda aposentado. E nem em vias de.

Se me acham um homem. Embora de idade. A ser cobiçado por mocinhas casadoiras. Iguaizinhas aquelas frequentadoras da academia do LTC.

Se me consideram um bom partido. Embora desprovido de recursos financeiros. Mas ainda com imensa capacidade laboral. Ainda com o tirocínio em dia. Não disposto a se deixar internar na casa do vovô. Pois ainda não sei a data quando irei morrer. Se amanhã? Tudo bem. Se noutro dia qualquer ainda melhor. Se no dia de São Nunca? Vai ser num trinta e um de fevereiro. Durante a madrugada. Melhor hora não há.

Confesso que apreciaria muito saber a opinião que fazem de mim.

Se boa melhor. Se não tanto. Menos pior.

Já eu me acho não a última bolacha do pacote. Existem incontáveis outras mais gostosas do que eu.

 

 

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