Ele exagerou

Com este calor que anda fazendo nada melhor que entrar em forma.

Não sob a forma de um barril. Com aquela barriguinha de chopp a encobrir-lhe pirulito que de tanto bater passa a broxar. E nem com Viagra resolve. E ele fica sempre murcho e cabisbaixo. Avexado por sua condição de fracassado no ato sexual. Que nem com capim novo dá jeito no desajeitado. E sua mulher passa por maus bocados. Sendo tentada a sair de casa com o belo personal da academia. E só não o faz depois de saber que ele é garoto de programa e cobra mais de um mil reais para consolá-la. E o maridão fica em casa assistindo a Netflix. Assistindo aos canais de filmes pornográficos. Que de nada adianta por ele ser de fato incapaz de prumar o pinto que não pia mais.

Daí. Neste verão calorento. Que chegou parece enxotando a chuva a outros cantos. Aqui tem chovido tanto que as estradas ficam enlameadas. Fazendo atolar os carros dos valentes homens do campo. Que não têm como desovar sua produção de grãos ou de leite. E sofrem à mercê da chuva em excesso e da estiagem prolongada.

As academias de ginástica encontram-se superlotadas. É cada musa fitnes de fazer-nos sonhar com a nossa passada juventude não transviada ou aviadada.

É cada garota malhando de causar inveja as nossas netinhas ainda adolescentes. E cada coroa que nos faz imaginar o que fica estampado no outro lado da moeda. Se é cara ou coroa.

Hoje, neste belo domingo ensolarado. Quente e abafado. Quem disse que a cama conseguiu me segurar mais tarde que as sete horas.

Antes das seis já estava de pé. Calcei meu par de tênis confortável. Liguei meu foninho de ouvido a escutar o Spotify. E deixei meu apartamento em direção ao LTC.

Como ainda era cedo a porta do clube estava fechada. Um par de tenistas madrugões estava prestes a entrar. Entramos juntos.

A academia ainda estava por se abrir. Foi quando chegou um personal pra mim desconhecido. Ele veio de Campo Belo como me afirmou depois.

Na esteira vizinha a minha corria um rapaz calvo como uma bola de bilhar. E como corria ele. Não devagar como eu. Seu vizinho de correlanças.

Enquanto eu me gabava de correr a oito por hora ele ia a quase vinte.

Ele usava duas toalhas para enxugar o seu suor. Eu pouco tenho necessidade de levar toalhas pois não suo tanto.

Ao cabo de hora e meia de correlança desatinada eu acabei mudando de aparelho. Sem um pingo de suor a molhar o chão.

Já ele, duas horas depois, continuava a correr desembestado.

Ao me aproximar da esteira onde ele estava correndo. Minutos antes. Cadê ele?

Nada de vê-lo. Morto ou semivivo.

Foi quando me deparei com uma poça de água clarinha ao lado de sua esteira.

Era ele que se transformou numa poça de suor.

E nem pude ir ao seu funeral. Pois águas salinas não se transformam em águas de rios.

Elas se endereçam ao mar.

De agora em diante não me importa a boa forma. A tal barriga de tanquinho ou a bunda empinada.

Prefiro ficar como estou. Nem ao sol muito menos a lua nova ou cheia de gordura.

Confesso que meu amigo da esteira do lado exagerou.

 

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