Como é bom acordar bem cedo. Tomar uma ducha morna e revigorante. Um cafezinho expresso depois de comer duas bananas.
E sair à rua a fim de comprar verduras e outras coisas fresquinhas vendidas numa feira livre.
Hoje, depois de uma chuva mansa e contínua que caiu durante a noite toda não me atrevi a ir à roça. Fá-lo-ei assim que o tempo melhorar. Quiçá hoje a tarde ou amanhã, domingo bem cedo.
Agora, por volta da volta das oito e meia desta manhã risonha deste sábado quatorze de janeiro, aqui estou. Na minha oficina de trabalho. Não para atender algum paciente que tenha agendado a consulta. E sim para retratar minhas aventuras prematuras neste dia que recém começou.
Deixei meu apartamento em companhia de minha amada esposa. Chovia mansamente. Eu, recém chegado do sul. Precisamente de Gramado. Usava um belo chapéu bem ao estilo gauchesco. Da cor de burro fugido. Abas largas como o coração de mulher dama. Para quem não as conhece apresento-as neste exato instante.
Elas começaram a vida de rameira. Ou prostituta ou mulher de vida fácil. Embora não considere nada fácil vender o corpo a quem paga para usá-lo. Seja numa deitada só. Ou depois de atender incontáveis fregueses muitos cheirando a banho vencido. Sendo presas fáceis de canos ou falta de pagamentos previamente combinados. Tendo de lavar aquela cavidade que mal umedece ou sente prazer depois do sexo acontecido. E daí a falta de prazer no coito propriamente dito e acontecido num quartinho abafado e com cheiro de mofo ou urina de rato.
Voltando a minha visita à feira livre. Agora um lugar abrigado tanto da chuva que cai ou do calor do sol. Eu, enchapelado. Levando, como sempre a minha pasta ao redor do pescoço como sempre recheada de livros recém editados. Com um balaio seguro pela alça. E na carteira algumas notas miúdas.
Enquanto a minha esposa passarinhava os olhos por uma banca de bananas e legumes frescos e verduras de folha. Eu, bom vendedor, soberbamente de livros. Não sei se o escritor que mora em mim é bom no que escreve como é bom de lábia.
Enfim, para fazer justiça a minha fama de bom de venda. Encontrei uma senhora usando óculos de grau. Ela e seu filho. De pouca idade. Um adolescente não aborrescente do lado. Mais parecia o garoto um trocador de lâmpada que não carece de escada por ser quase da altura de um poste de luz.
E, na intenção de fazer que fosse uma venda de um dos livros. Ou uma troca. Que se equivale a dizer catira ou permuta ou até mesmo escambo.
De começo perguntei a ela se me conhecia. No que ela disse não me apresentei pelo meu site.
Ela arregalou os olhos negros e disse: “sim! Quem não conhece o médico escritor doutor Paulo Rodarte?”
Já eu, todo garboso. Retruquei a sua exclamação com um sonoro “muito lisonjeado.”
Ela vendia ovos caipiras caiporas. E não sabia de qual galinha havia saído pela cloaca este ou aqueloutro ovo vermelho e bem graúdo.
Enquanto eu propunha a catira de um dos meus livros por seus ovos. Não dela e sim de suas galinhas.
Sob olhares vigilantes do seu filhotão enciumado.
Assim que ela topou a troca retirei meu livro “Por quem os sinos não dobram” da minha pasta e dediquei a ela uma amável dedicatória.
Em troca de meu livro antes citado levei pra casa seis dúzias de ovos lindos. Por sorte nenhures estava choco.
À saída da feira livre ainda fiz esta pergunta a alguns passantes: “quem levou manta?”
A maior fatia dos entrevistados disse: “foi ela.”
Alguns amigos meus disseram em coro: “foi você”.
E vocês? leitores deste texto. O que responderiam?
Não quero influenciá-los. Dizendo ter sido bom para ambas as partes.