Faz-me falta aquela Santa Casa dos tempos idos

Bem sei que modernizar é preciso.

Ir adiante uma consequência inadiável de nossas vidas.

Que o passado deve ser considerado um papel passado.

Que caminhamos pelo presente em direção ao futuro.

Mas e o futuro? O que ele nos reserva? Uma névoa densa recobre meus olhos. Não é como aquela cerração fechada que prenuncia o sol que deve rachar no decorrer do dia.

Ontem mesmo choveu durante a noite. Agora um solzinho tímido acorda por entre as nuvens.

Ontem era recém formado. Na data presente, treze deste mês de janeiro. Aos setenta e três anos. De agora a três míseros anos completarei cinquenta anos de graduado.

Ainda me lembro daquela efeméride.

Éramos cento e sessenta jovens esculápios becados. De fartos cabelos negros ou claros. Alguns usando bigodes e cavanhaques da moda. Outros de cara lavada por onde escorriam lágrimas de pura emoção. Choro esse compartilhado pela familia do becado.

Recebendo o diploma num velho ginásio de esportes. Depois a festa de formatura aconteceu num clube elegante da capital. E depois nos apartamos. Cada um seguiu seu rumo. A maior parte de nós continuou a sua formação profissional perseguido uma especialidade. Já outros, valentes guerreiros, já partiram rumo ao seu berço ou a uma cidade díspare de onde nasceu. E não se deu ao desfrute de fazer residência médica. E teve de enfrentar plantões ou subempregos que lhes pagavam uma mixórdia. E muitos deles foram mal interpretados em sua nobre missão de atenuar ou aniquilar dores. Sendo acusados de omissos ou incompetentes profissionais. Já que não tinham o acompanhamento de médicos de maior experiência em seu trabalho exaustivo. E pacientes perdiam a vida na fila enorme que se espichava à porta dos hospitais.

E por falar em hospitais. Nesta crônica de hoje cedo. Treze de janeiro de 2023. Gostaria de voltar a minha inspiração a este velho hospital nomeado de Santo. As incontáveis Santas Casas que salvam vidas por todo Brasil. E a nossa Santa Casa. A mesma que aqui pertinho me olha com olhares de velhas lembranças. Dos tempos longínquos quando aqui apeei. Em maio de um mil novecentos e setenta e sete.  Oriundo da Espanha. Para ser mais explícito de Madri.

Usando um tamanco de solado de madeira. Vestimentas brancas como asas de anjos. Fumando um cachimbo sem saber como tragar a fumaça. Pois nunca fui fumador de cigarros.

Sabem que fui pioneiro na Urologia   por estas bandas? E cá introduzi a operação de próstata pela uretra. Ainda me recordo de alguns pacientes que me tiraram o sono e me fizeram mais experiente na arte de desentupir sondas e propiciar a eles uma micção mais condizente a sua felicidade. Já que eles descobriram a dor e o incômodo de terem a sua bexiga urinária repleta sem poder esvaziá-la a contento.

Passei mais de vinte anos solitário na minha arte difícil de ser posta à baila neste balé da vida no qual estamos metidos.

Não sabia o que era uma boa noite de sono pois aquele velho telefone fixo tilintava durante as madrugadas e eu devia voltar às pressas a Santa Casa para desentupir sondas tapadas por grandes coágulos duros como minha cabeça de jovem esculápio.

Aquela Santa Casa tem mais idade que a nossa querida Lavras. Que dantes se chamava Santana das Lavras do Funil.

Segundo consta no registro de nascimentos. De algum cartório que precedeu o do meu avô Rodartino Rodarte. A nossa Santa Casa. A que apelidei de Santa Causa.

A nossa Santa Casa de Misericórdia de Lavras aqui se iniciou há inexatos cento e cinquenta e quatro anos. Os seus alicerces bem fincados nasceram num terreno central. De propriedade da Igreja e dos padres. Daí ela é vista de ombros com a igreja matriz.

Ainda me lembro dos saudosos Doutor Silvio Menicucci. Seu irmão Pedro. Não conheci o doutor Paulo. Mas o notável anestesiologista doutor Hugo não somente foi meu amigo assim como tivemos a glória de operarmos junto no mesmo centro cirúrgico hoje bastante modernizado.

E do colega imaginologista de sorriso fácil e afável. Com o qual aprendi muito com as belas imagens dos rins e vias urinárias. Ainda considero a Urografia Excretora imbatível em definição de onde estaria localizada aquela pedrinha marota que teima em encalhar no ureter.

Doutor Antônio Faria deixa saudades. Não somente no âmago dos Tonelli de Faria como de todos nós que o conhecemos.

Não poderia omitir o nome de outros colegas que militaram na Santa Casa. Entre eles cito doutor Manoel Calhau. Creio ter sido o primeiro que me recebeu de braços abertos. Num quartinho acanhado. No velho prédio que já não existe mais. Já o doutor Antônio José. Otorrinolaringologista pioneiro em sua arte. Que tinha um consultório defronte a Santa Casa. E ele foi intimado a exercer a sua especialidade prematuramente na azulice do céu.

A dona Marieta não era médica. O enfermeiro Lico não era doutor. Mas eles ajudaram a edificar o bom nome da nossa Santa Casa.  E suas caras boas ainda estão presentes em minhalma.

Faz-me falta aquela Santa Casa dos tempos idos. Das nossas conversas ao pé do ouvido na sala de espera do consultório do doutor Silvio.

Das minhas conversas enriquecedoras na sala de laudos do doutor Faria. Das risadas estridentes do doutor Hugo anestesista e meio psiquiatra do hospital não mais existente Paulo Menicucci.

São tantas lembranças boas que temo não me lembrar de todos eles.

Agora a velha Santa Casa mudou muito a fachada e o interior. Modernizou-se verticalmente.

Mas, confesso- faz-me falta o velho hospital. Já nos dias de hoje. Quando ali adentro. É como se um punhal de fio afiado me ensartasse fundo dentro do meu peito.

 

 

 

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