Nunca fui um descrente por completo.
Em menino cria em Papai Noel.
Até aquele Natal passado. Quando esperava. Coraçãozinho recheado de ansiedade. Que o bom velhinho descesse pela chaminé. Depois de uma longa viagem da Lapônia até a nossa cidade. Tendo como veículo de transporte um trenó de renas aladas. E, com aquele corpanzil fora do peso como ele entrava pelo buraco estreito da chaminé. E não entalava no meio dela. E saía com a roupa vermelha e com aquele gorro esquisito sem ficar fedendo a fuligem.
Naquele Natal que o tempo levou. Naquela noite mágica. Euzinho sem conseguir dormir. Até a presente idade tenho pela noite um verdadeiro pavor. A espera do Papai Noel. E ele não chegava nunca. Vi o meu pai distribuindo presentes debaixo da árvore de Natal. Embrulhos, pacotes multicores. Todos eles lindamente embrulhados em caixas fechadas com laços de fita amarela. Cada uma delas endereçada aos nossos nomes. E eu acabei descrendo do tal Papai Noel. Já que o nosso pai. Embora não vista a roupa do bom velhinho ele assume o encargo de nos presentear e cuidar da gente até que ele parta rumo ao infinito. E somos nós que um dia seremos os papais noeis de nossos filhos e netos. Até que outro papai do céu no convoque à vida eterna. Embora não saiba. Com certeza. Se existe de verdade vida depois desta.
A minha crença no amor existe desde sempre. Quando, pela vez primeira, com meus olhinhos inquiridores descobri outros olhos de uma pessoa que me gerou. Creio ter sido na maternidade onde nasci que este fato aconteceu. Foi nos olhos de minha mãezinha que acabei por compreender o significado exato do que seja amor. Aquele é um amor distinto do amor que sentimos por uma pessoa de outro sexo. Apesar de que hoje em dia duas pessoas. Independentes se são femeas ou machos. O amor existe em igual intensidade e volume.
Amores são como a atração que um beija flor avoa de flor em flor. Sugando o néctar com seu biquinho fino. Usando suas asinhas lépidas e imparáveis.
Amor não se compara ao rancor ou ao ódio. São sentimentos díspares como o sol e a fria lua. Como o negro e o branco. Só feitos assim pela melanina que confere cor a nossa pele.
Amor não tem dia pra acontecer. Pode suceder tanto no clarume do dia como na escuridão da noite alta.
E, nesta minha idade dita por muitos provecta. Aprendi a distinguir amor e paixão.
O amor resiste ao tempo e as mudanças de estação. Já a paixão. Ah, se ela soubesse sobreviver à idade. Resistisse às rugas que passarinham em nossa face. E o sexo ainda acontecesse com o mesmo furor à mercê das celulites que parecem macular a beleza das pernas lindas e curvilíneas que dantes se entrecruzavam as nossas antes musculosas e quase perfeitas. O amor não faz distinção entre o belo e o feioso. Ele simplesmente ignora os defeitos e os metamorfoseia em virtudes.
Já tempos reconheci neles o amor de verdade.
Trata-se de um amor diferente daquele que sentia pela minha mãe ou meu paizinho.
É um amor que teve começo a exatos vinte e sete anos atrás.
Ela uma lourinha de pele branquinha como algodão em processo de clareamento.
Já ele moreno de uma morenice brejeira como um jambo maduro.
Ambos na presente data moram um andar abaixo do meu apartamento.
Para chegar até eles basta subir um degrau de escadas. Não carece adentrar pela chaminé como cria que Papai Noel fazia na minha meninice peralta. Ou basta interfonar o número um zero um.
De vez em quando adentro porta adentro. Lá encontro ou ele ou ela tintando quadros. São aquele lindo casal verdadeiros artistas. Ela usa outro artificio para mostrar a sua arte. Já ele. Fumante, convicto e convencido. Não na extensão propriamente dita. Já que nele percebo a humildade dos grandes personagens da nossa história. Faz da sua enfermidade grave uma forma de sempre dizer. Quando a ele pergunto: “como vai você?”
E ele sempre responde: “estou ótimo. Melhor impossível.”
E ri a risadas desfraldadas. Nunca o vi de mau humor.
Ela, divorciada do primeiro marido com ele se consorciou.
Ele seguiu igual caminho.
E são meus vizinhos do andar de baixo.
De vez em quando aproveito a deixa do portão da garagem que ela aciona de dentro do seu carro. E quase sempre. Por não andar de carro. Esqueço-me da minha chave.
Ontem. Já era tarde da noite. Quando a minha barriga ronronava faminta. Já que minha amada Rosa mulher saiu espevitada do meu apartamento. Já que não sabia onde havia deixado sua bolsa e celular. Acabei subindo um lance de escada. Como a porta estava aberta. Como se fosse o portão de uma igreja as vésperas de a missa iniciar. Acabei por entrar. Mesmo sem ser convidado à efeméride.
Ali estava sendo realizada uma festa de aniversário.
E o aniversariante era o marido da lourinha artista.
Vestido à gaúcha. De bombacha, guaiaca e lenço vermelho a enlaçar o meu pescoço curto acabei ficando.
Matei metade da minha fome. Saboreei deliciosas empadinhas e tortas de galinha. Um sandubinha no capricho deu conta de aplacar meu apetite guloso. Uma torta doce e gostosa fez-me lembrar aquela feita pela minha avozinha Belica do Rodartino.
Deixei a efeméride preocupado com o destino da minha Rosemirian. Ela ainda não havia chegado ao meu apartamento.
Antes descria em tantas coisas e loisas.
Já acreditei em Papai Noel e ainda acredito em Papai do Céu.
Já tive amores e desamores. Paixões duradoras que morreram por falta de contato pele a pele.
Já hoje. O que senti na casa do Mucho e da Maria Eugênia, artistas que são. Me fez acreditar no verdadeiro amor. Aquele mesmo que pode mudar de cor e de odor.
Mas resiste. Estoicamente. Ao envelhecer. Ao perder o viço da juventude. Ao nascimento das rugas e das inevitáveis celulites.
O amor em verdade não morre nunca. Mesmo debaixo de sete palmos de terra ele renasce.
Tal e qual a ave Fênix. Que ressurge das cinzas para se transformar num beija flor.