Garoa de problemas

Quem diz que dormir com uma chuvinha mansa do lado de fora da janela nada mais é do que motivo de uma ótima noite de sono e repouso nem de longe imagina as tribulações que o Zé Garoa tem sido vítima durante este período extremante chuvoso por que estamos atravessando.

De fato. A chuva não cessa. As nuvens não embranquecem. O céu não azuleia.

A gente dorme debaixo de chuva e levanta com a mesma chuvica do lado de fora de nossa morada. E quem não tem casa? Mora debaixo de uma ponte ou viaduto? E os sem teto que dormem ao relento tomando vento nos fundilhos. E água da chuva para a hora do banho improvisado sem ducha ou banheira.

Tudo em excesso complica a vida das pessoas. Excesso de zelo. Chuva em exagero. Amor ao destempero. Carinho sem compartilhamento. Lamento sem motivo. Livros sem leitores ou apreciadores. Palavras que ecoam no vazio do olvido. Ouvidos moucos à podriqueira fedorenta que ontem me fez perder o olfato ao limpar camarões de casca.

Estão entendendo tanta frase sem nexo? É que eu escrevo o que meus dedos digitam. E meu cérebro dita.

Voltando ao Zé Garoa. Vou lhes apresentar o dito cujo.

Ele se trata de um hominho nascido e criado na roça. Filho de pais roceiros. Tendo por tios pessoas criadas na lida diuturna na roça de milho. E seus avós, tanto paternos como maternos, eram todos também homens e mulheres do campo. Que só vinham à cidade por extrema necessidade. Quando em casa faltava o que lá não produzia. E voltavam a sua rocinha num pé lá outro cá.

Zé Garoa só tinha um defeito: “trabalho dimais.” Dizia aos amigos e aparentados.

E ninguém punha em deudas a sua fala. E, de enxada enfiada nos ombros. De foice empunhada. Depois de uma noite curta lá ia o nosso herói em busca de vacas extraviadas num matinho perto do curral.

E era essa a sua rotina no dia após dia. Fizesse chuva ou lambesse o sol madrugador como Zé.

Foi num dia destes quando nossos olhos se entrecruzaram. Era num final de semana.

Creio. Se não me falta a lembrança. Há um par de dias antes de hoje.

Chovia a encher a estrada de lama viscosa. Nada se via a não ser água caindo.

Precisei deixar a minha caminhoneta Orock lá no alto. Depois da porteira da casa do Zé.

Se por acaso descesse alguns metros mais com certeza não subiria ao fim do dia. E teria de pedir pouso na casa do Zé. Nada contra. Sé que na casa do Zé Garoa só tinha uma cama de casal. Dormir ao lado de home não me apetece. De muié sim me agrada.

Encontrei o amigo Zé mais sujo que lençol vermelho tinto da cor de sangue depois da lua de mel com muié virge. Não no signo. E sim muié com selo de castidade vinda da casa dos pais.

Ele elezinho estava fazendo o que mais apreciava – trabalhar.

Só que a chuva despencava forte e macia. No alto nada se via a não ser mais nuvens cinzentas.

E o pobre Zé carecia ensilar a roça de milho no ponto de enfiar no buracão feito com a ajuda das máquinas da prefeitura.

Dava uma trabalheira danada. Usar o trator emprestado de um vizinho chegado. O qual se dizia amigo. Em verdade amigo da onça. Que cobrava por cada hora de trabalho de uma de suas máquinas o preço mais salgado que dez pastéis feitos por encomenda à dona Adélia.

Uma quituteira cuja fama atingia mais que o alto daquela serra que daqui se avista quase por inteiro.

E a chuva não dava tréguas. As previsões mais otimistas diziam que ela iria durar mais de vinte dias.

E o tempo rugia como um leão faminto a procura de sua leoa no cio.

Foi quando nos demos um a frente do outro.

Foi só apertarmos as mãos e a nossa roupa molhou mais ainda. Era chuva no lombo a nos encharcar a cueca.

Uma hora e meia ficou atrás. E eu tinha de voltar à cidade. Com medo de não poder chegar ao meu lar.

An passant comentei com o compadre Zé: “e como tem chovido! Mais parece um dilúvio como aquele que passou Noé. E, se a chuva não parar cumequefaiz”?

E foi esta a resposta do Zé Garoa: “ah! num faiz. Compra feito. Se fosse só a chuva a causa dos meus problemas tava bom dimais. Chuva é obra de Deus pai. E ele sabe o eu faiz. Pra mim chuva dimais se trata de uma garoa de percalços. Uma garoinha sozinha. Pra mim tanto faiz como tantas fezes faz uma boa dor de barriga.”

Num é?

 

 

 

 

 

 

 

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