Foi ontem que nos conhecemos.
Era um sábado chuvoso de não deixar ver a azulice do céu.
A estrada de Ijaci a minha casa da roça até que estava transitável. Embora uma enxurrada de águas barrentas engolia parte dela nas proximidades da fazenda do velho Mazico. Era preciso cautela para atravessar a boiada que pachorrentamente deixava o curral depois da primeira ordenha. Uma vaca de bucho cheio simulava a monta em um touro zebuíno pois sentia que era hora do cio. E o bicho sacudo desdenhava da infeliz pretendente a amante.
E eu passava na minha Orock levando dois amigos: o pintor faz tudo Clodoaldo e seu ajudante ao qual chamo de Vitinho. Embora seu nomezinho seja, em verdade, Luís.
Em alguns minutos apenas estacionei minha caminhoneta logo a entrada da porteira. Tinha receio de ir até lá embaixo. À porta da minha linda casa beira represa do Funil. Pois a estradinha curta que nos levaria mais perto estava escorregadia como quiabo. Descer não seria problema. Desde que eu, motorista acostumado a dirigir em estradas enlameadas não me descuidasse do volante e do freio. Pois então fatalmente iria estrada abaixo ziguezagueando sem controle. E poderia terminar minha curta jornada por debaixo de pés de jabuticabas ainda sem frutas maduras a adocicarem a minha boca.
E fomos caminhando cautelosamente estrada abaixo e morro acima. O percurso não era lá grandes coisas. Um ou dois quilômetros, se tanto. Mas o trajeto era barrento e escorregadio por sobre um cascalho inutilmente derramado dias antes.
Enfim chegamos nós três à minha linda morada à beira da represa do Funil. Clodoaldo e Vitinho chegaram dantes. Eu mais atrasado cheguei com minha Crocks toda enlameada.
Eu trazia a chave da casa no bolso de tras da minha bermuda. E os dois careciam entrar. Chamei pelo meu caseiro Tom Zé. Cadê ele? Ele já havia mudado meus tres cavalos de pasto e dado de comer aos meus dois cãezinhos- Clo e Robson. Que ladravam de saudades minhas dentro do canil onde moravam. Desta feita não os soltei. Tínhamos muito a fazer e o tempo escasseava. Mais chuva prometia descer do céu cinzento.
Uma vez as tarefas de dentro de casa finalizaram partiram Clodoaldo e seu prestimoso ajudante a envernizar o píer. O telhado foi terminado. Faltava apenas o piso amadeirado que iria ficar para uma próxima vez.
Era hora de voltar a minha Orock. Ela se deixava ver lá em cima. Parada perto da porteira de madeira nobre que Roberto fez.
Ao nos aproximarmos do caminhão leiteiro ele estava encalhado na estrada barrenta. Meu amigo, arrendador de minhas terras tentava debalde rebocar o velho caminhão até mais no alto. Mas seu trator diminuto não deu conta do recado. Faltava-lhe potência e algumas polegada mais na estatura e envergadura.
Foi neste ponto do meu relato que conheci o pequeno Pejotinha. Um menino atento aos movimentos do trator. Perto dele estava seu amado pai e companheiro. O dono do caminhão leiteiro que faz aquela linha de leite desde o lacticínio PJ. Passando por outras artérias enlameadas. Estradas difíceis de serem vencidas. Na finalidade de levar litros infindáveis de leite no tanque refrigerado do seu caminhão estradeiro.
Como o outro trator deveria chegar em alguns minutos ou horas levei o garotinho Pejotinha a minha Orock. Dentro dela haviam dois livros. Os últimos de minha lavra.
Depois de ler uma crônica ao Pejotinha presenteei-o com um exemplar de Leia com meus olhos.
Não sei se ele entenderá todo o teor dos meus escritos. Nas mais de duzentas crônicas ali inseridas.
Neste interregno consegui retirar de sua boquinha quase sempre fechada alguns pequenos detalhes de sua rotina como filho e herdeiro de caminhão leiteiro.
E elezinho assim me confidenciou: “meu pai, quando estou em férias, me acorda em plena madrugada. Tomamos um cafezinho com leite frio. Nem de pão amanteigado nos servimos. O percurso que temos de percorrer é longo e complicado. Recolhemos leite aqui e acolá. Na seca a poeira não incomoda tanto como a chuva. Comemos poeira estrada afora. Mas na estação chuvosa o tempo ruge como um leão faminto. Ora atolamos no barro ou na ida ou na volta. Ora carecemos de um trator ou dois para nos rebocar. Sofremos como o nosso caminhão. Este, que meu pai ainda deve algumas prestações presta serviço ao lacticínio PJ. E, na derradeira vez que voltávamos de uma fazenda mais uma vez o nosso veículo encalhou no barro. Foi preciso o socorro de uma retroescavadeira que. Ao levantar o caminhão acabou por quebrar o eixo que passa por baixo do motor. Só o conserto e a mão de obra custaram ao meu querido pai a importância de quase cinco mil reais. Pago do bolso dele. Não é fácil ser motorista de caminhão leiteiro nestas estradas mal cuidadas. Mesmo assim vou seguir o caminho do caminhão do meu pai.”
É. Não é nada fácil. E ainda tem quem se queixa do preço do litro de leite. Para o produtor pagam menos que meia garrafa de cerveja. E ignoram toda a luta rotineira que o pobre homem do campo tem na sua lida diuturna.
Sorte ao meninozinho Pejotinha. Ele e seu pai bem o merecem.