Retrato de mulher

Um dia você será apenas um retrato envelhecido na parede. Ou por cima de um móvel qualquer. De cujas lembranças ainda que envelhecidas trazem saudades e dor aos que aqui ficaram. À sua ausência sentida. Eu mesmo ainda me lembro dos meus pais. A fotografia de minha mãezinha querida permanece emudecida numa estante por detrás de onde me encontro. Já a do meu saudoso pai se acha do lado direito da minha mão direita. Eu e ele lado a lado. Eu, seu filho mais longevo a ele entregando um diploma de honra ao mérito. Eu de blusão de couro negro. Ainda de fartos cabelos. E ele usando uma blusa azul marinho. Numa cerimônia realizada no Rotary Club Lavras Sul. Esse fato se deu há anos e anos atrás.

Por sobre a estante onde guardo tantos livros de minha autoria e de outros autores. Ainda moram fotografias de mim menino. Peladinho num galinheiro. Entre galinhas brancas sem receio e perder a minha fimose no bico de alguma delas. Confundido que pode ser com alguma minhoquinha de pequeno tamanho. Hoje esta mesma minhoquinha cresceu mais de vinte centímetros.

Retrato de mulher. E elas bem merecem. Caso um dia a vida se extinga pra elas. Serem eternizadas numa bela fotografia. Nas mesmas cores do arco íris. Ou até mesmo em preto e branco. Amarelecidas pelos anos. Sobre um baú de guardados qualquer.

Não somente minha mãe deve ser lembrada num retrato de mulher. E todas as outras mulheres. Que sejam brancas, cafuzas, pardas, morenas, da negritude de uma jabuticaba madura. Elas merecem muito mais que nossas preces. E ensejam saudades nostálgicas pelo seu passamento ocorrido a anos passados. E como eu prezo as lembranças de minha mãezinha não só pelas crônicas escritas tantas. Bem como pelas lágrimas ainda derramadas ao me recordar delazinha.

Entre tantas mulheres a serem cultuadas. Mesmo entre as ainda vivas. Merece citação uma ou outra delas.

Esta mulher de uma valentia indômita a conheci faz três meses se tanto.

Carecia, com certa premência, de uma pessoa que fizesse uma faxina nas duas casas da minha roça. Quem ma indicou foi meu amigo caseiro Tom Zé.

Foi ele quem enviou uma mensagem de zap a guerreira Laíse.

Uma mulher trigueira. Destemida e boa no seu metier.

Segundo corre a voz local dona Laíse não só é boa na faxina como excelente dona de casa.

Ela mora com o marido e dois filhos lá pelas bandas do Barreiro de Baixo. Sua casa fica a umas boas tres léguas da minha morada beira represa do funil.

Na primeira vez em que nos encontramos o seu marido a trouxe de carro. Quando eu chegava a minha casa ela já estava fazendo o andar de cima. Meu quarto e os três do andar outros ficaram um brinco de limpeza. O banheiro amplo então nem se fala. Podia-se pentear os cabelos que me restavam pela imagem que o piso mostrava.

No andar de baixo a cozinha enorme nunca mostrou tanto brilho. O fogão a lenha. Nunca antes usado. A churrasqueira de dimensões enormes nunca viu brasas a crepitarem em seu interior. No mesmo andar a sala de televisão ficou mais limpa que bunda de nenê depois do banho e do talquinho perfumado. O outro quarto mais um espelho de onde reluzia limpeza. O cômodo de banho anexo parecia recém saído do pedreiro azulejador.

Já o salão perto da piscina de tão limpo me dava pena de ser pisado. O outro banheiro dava gosto de nele nos banharmos.

Ontem precisei novamente dos serviços perfeitos da dona Laíse.

E ela não regateou ao meu chamamento. E como chovia na manhã de ontem.

Ainda tinha dúvidas por qual estrada iria viajar até a minha casa da roça. Se ia por Ijaci ou pelo barreiro de baixo. Não sabia ainda qual caminho seria menos pior ou mais barrento.

Como tinha de pegar um saco de capim picado a dar aos meus cavalos decidi-me ir por Ijaci.

E a dona Laíse iria caminhando chuva afora desde sua casa a minha morada.

Era imprecisamente oito horas da manhã quando me deparei com dona Laíse quase chegando a minha morada. Ela ia caminhando apressada com uma pequena sombrinha listada. Com seu chinelinho de dedo como se fosse um belo tênis de corrida. Ofereci-lhe carona.

Chegamos juntinhos a minha casa beira represa do Funil.

Enquanto meu amigo Clodoaldo e seu enteado Vitinho envernizavam o píer a dona Laíse faxinava a casa de cima.

Em menos de cinco horas de trabalho incessante as duas casas rescendiam a limpeza.

E voltamos a Lavras pela estrada do Barreiro de Baixo. Deixamos a dona Laíse à porta quase de sua morada. Ela me agradeceu com um belo sorriso.

Se alguém faz por merecer um belo retrato de parede não tenho outra mulher a quem retratar.

Receba. Minha cara dona Laíse essa modesta crônica de hoje cedo. Como apreciação não apenas de minha amizade como do meu apreço.

 

 

 

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