“Mãe! Todas as pessoas que morrem vão pro céu?”

Se existe céu e inferno sempre foi uma questão aos meus olhos inquiridores sem resposta.

No meu entender céu não tem endereço certo. E inferno se trata de um lugar quente. Abafado. Cujo endereço nem o correio sabe. Decerto deve ser um lugar frequentado por pessoas de passado duvidoso. Tidas em vida como gente má. Sem coração. Desprovidas de emoção ou sensibilidade. E, devido aos seus inúmeros pecados foram sentenciadas a viver outra vida num local de má fama. Onde diabinhos de chifres vermelhos. E suas namoradinhas molecas lindas. De bundinha de fora. Dançam na intenção de atrair recém chegados. Gente que estava na lista de algum conhecedor que porventura soubesse idenficar entre o joio do trigo. Todo aquele candidato a passar o resto da morte que seja no inferno ou no céu dos anjos e querubins.

No conceito geral todo aquele que morre seus defeitos são esquecidos e passam a ser chamados de santos. As suas boas qualidades são enaltecidas. Seus defeitos olvidados. Mesmo aqueles cabeludos. E é dos carecas que elas gostam mais.

Eu, no meu entender, deveria ser ao revés. Se alguém me considerar um bom exemplo de médico. Que seja um escritor embora desconhecido de boa relação com as palavras. E as trato com gentileza e doçura. E não maltrato a última flor do Lácio inculta e bela. Se quiserem me homenagear que seja em vida. Já que depois da morte não estarei sequer escutando os apupos e aplausos. Nem saberia identicar quem iria chorar lágrimas de crocodilo ou de jacaré de papo amarelo.

Pra quem não conhece Mariazinha eu lhes apresento aquela meninazinha de cabelos lourinhos e cacheados. Cabelos de anjo como os do meu netinho Theo.

Elazinha sempre foi boa aluna e inquiridora. Estudiosa e bem comportada. Tida não só pelos coleguinhas e professoras como exemplo a ser seguido pelas estradas da vida.

Mariazinha foi nascida na periferia de uma grande cidade. Num bairro de má fama se bem que justificada. Onde tiros se ouviam durante as madrugadas. Onde brigas eram comuns seja nas ruas ou porta de bares. Onde cadáveres frios eram descobertos a luz do sol. E onde a polícia evitava o confronto mesmo fortemente armada.

Mesmo sabedora dos perigos que a rondavam Mariazinha não tinha medo de deixar sua casinha modesta e limpíssima. Como não tinha dinheiro suficiente para comprar roupas novas era com a mesma que saía rumo à escola. Um vestidinho de chita e uma fita tinta com as mesmas cores do vestido que sempre usava.  E não havia unzinho sequer que dissesse que Mariazinha não se apresentasse linda.

E elazinha desfilava pelas ruas da sua favela como se fosse um modelo de passarela.

Até que um dia. Era uma tarde chuvosa e cinzenta. A chuva forte fazia estragos por onde caía. Enxurradas lavadoras derriçavam barro vindo dos morros. As ruelas precárias eram transformadas em rios corredores. Inundando casas. Prejudicando donos de lojas que não tinham como salvar suas mercadorias.

Foi nesta hora exata que Mariazinha. No seu caminhar rumo a escola. Tentando não sujar seu sapatinho lindo. Ao tentar se desviar da enxurrada tinta em barro sujo. Deu um escorregão e foi ao chão.

Por sorte dela não foi levada pela enchente que se formou durante aquela chuvadonha.

Ficou agarrada um poste de luz de cimento. E a enxurrada passava inclemente aos seus gritinhos estridentes.

Mariazinha permaneceu horas perdidas naquela situação calamitosa. Vendo a chuva tintar o céu das cores da escuridão da noite embora ainda fosse dia.

Mais de três longas horas se passaram.

Quando se julgava irremediavelmente perdida eis que aparece do nada um bote do corpo de bombeiros. Habilmente capitaneado por um capitão da instituição.

Mariazinha foi salva por um quase. Por um triz.

Mas não teve a mesma sorte uma sua coleguinha de escola. Janaina, sua amiguinha. Da sua idade exata. Foi levada pela correnteza e só foi encontrada dois dias depois quando a água baixou. Mortinha da silva. Embora seu sobrenome fosse Oliveira.

Uma vez durante o velório. Assaz concorrido na comunidade. Quase igual ao de Edson Arantes do Nascimento.

Mariazinha. Levando a amiguinha à escuridão mãe terra. Desferiu a queima boca uma pergunta de difícil resposta a sua querida mãezinha.

“Mãe. Todas as pessoas que morrem vão para o céu?”

Eu não saberia responder um sim ou um não. Diria simplesmente depende. Do que esta pessoa fez de bom ou de ruim durante a sua estada entre nós.

Concordam?

 

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