“Eu não fui!”

Quem ainda não se pilhou em flagrante delito. Um pecadilho leve. Exemplifico: assim que o rusguento vizinho percebeu. Logo cedo. Num dia cinzento e rabugento como ele. Os vidros da janela da sala de visitas estilhaçados. E, do lado de dentro uma bola de capotão jazia com a cara mais lambida do mundo. E o moleque Zezinho do lado de fora. Meio encabulado e arredio. Temendo ser a ele imputada a arte. O que na verdade era. Ao ser repreendido pelo vizinho de nome Chico Ventania. Pois ele tinha esse apelido devido ao vento que lhe levantava os cabelos da axila cabeluda. A cada ventania que assoprava em pleno verão mais quente que o ínferno de Dante. Voltando ao nosso causo. Sobre os vidros da janela feitos em cacos. Quando disseram ao garoto moleque Zezinho que seria ele o autor da façanha. Ele, com a cara mais vermelha que um pimentão maduro. Afirmou, com sua vozinha fanha: “eu não fui.”

Não carece dizer que Zezinho pegou um castigo duro. Ficou. Por um mês inteiro. Mais que merecido. Privado de brincar com o celular de sua mãezinha amada. A porta de sua casa a jogar. Com os amiguinhos. Aqueles joguinhos que só as crianças sabem fazer com maestria.

Estamos ao apagar das luzes da posse do novo presidente da nação brasileira.

Confesso não ter sido dele meu voto. Se bem que já enfiei o nome Lula na urna de outra feita numa eleição passada. Não me lembro bem como ele se portou como presidente no seu primeiro mandato. E esta é a terceira vez que ele sobe a rampa na nossa capital federal. Agora a mulher que o acompanha não tem a cara insossa da outra de nome Marisa. E Janja me parece ser não apenas figura decorativa. Embora seja bonita e apetitosa. Mas me parece que ela vai ter voz ativa nos destinos da nossa amada nação brasileira.

Algo me diz que iremos passar por um período de quatro anos de prosperidade e paz. Tomara as minhas previsões se concretizem.

Antes nem podia ouvir falar no nome Lula. E a palavra larápio me soava como uma martelada aos meus ouvidos escutadores.

Agora, que a voz do povo foi ouvida acabei me bandeando pro lado da maioria. Quem sabe desta feita acertamos? Só o futuro nos vai permitir saber quem está com a razão. Os bolsonaristas crentes ou os petistas vermelhões.

Ainda sob os efeitos da entrada do novo ano. Tendo de nos aquietarmos a nova realidade. Já que nada podemos fazer para mudar o curso da história. Ela é escrita em letras miúdas e graúdas. Vamos deixar que as águas dos rios escorram em direção ao mar. Já que águas de rios não retrocedem apenas fazem volta aos obstáculos que se interpõem entre suas corredeiras.

Já ao presidente recém empossado esperamos que faça um bom governo. Unamo-nos em prol de uma causa comum. A felicidade de nosso povo sofrido e tão díspare em suas camadas. Que o fosso social se atenue. Que a fome seja mitigada. Que a saúde não seja apenas e tão somente uma promessa oca e sim uma retumbante realidade ao alcance tanto do Zezinho Ninguém como do Mané Trovoada Riquinho.

Tenho um vizinho de cerca. Na minha rocinha antes prejuizenta. Agora não mais. Já que ela foi arrendada a quem entende de vacas de três peitos ou as de quatro perfeitos. Eu fiquei com o filé e a picanha. Justamente a parte banhada pela represa do Funil. Onde edifiquei uma linda casa. Onde pretendo um dia. Quando meus olhos se fecharem de vez pra sempre. Ser sepultado na mesma cova juntinho aos restos mortais de meus dois cãezinhos- Robson e Clo. E ali permanecer ad eternum. Pra não dizer pra sempre.

Este mesmo vizinho. O qual considero meu amigo. Pessoa em quem deposito minha irrestrita e total confiança inabalável. Cujo nome é Marcelo Cavalo. Pois ele sabe como lidar com estes lindos animais. Meu companheiro bolsonarista radical. Mesmo sob os ecos da derrota ele continua fiel como meu querido Clo a mim.

Ainda sob os efeitos do derradeiro pleito. E ele não considera o presidente eleito digno do cargo a que foi guindado. Meu amigo Marcelo Cavalo ainda protesta dizendo em altos brados que a eleição foi uma fraude.

Num dia quando fomos a minha roça. Ele é meu fiel escudeiro e palpiteiro. De vez em sempre mando que cale a boca. Pois ele fala demais. Pelos cotovelos e pelas nádegas roliças.

Estava caindo uma chuva a encher baldes até vazar.

Numa curva da estrada barrenta quase dei com minha caminhonete nova no barranco. Fomos salvos pela minha destreza.

Numa parada rápida demos de cara com o Zé da dona Tiana.

Ele estava. Como de costume acostumado. Assentado nos seus calcanhares duros. Mascando um paiero apagado.

Foi o tempo de um dedal de prosa. Entre mim e ele.

“Cume que é? Tá tudo nos conformes? Falta algo para ti? Está satisfeito com o resultado do último pleito? Ganhou o seu candidato? Ou vosmecê gostaria que fosse o outro?”

Já o Zé da Tiana nem se deu pela coisa. Continuou como estava. Pitando um paiero apagado. Quase apagado de tanto cansaço.

Foi esta a resposta que ele me deu: “quer mesmo saber? Pra mim tanto faz como fedeu. Não me importa se foi Lula ou o Bozo. Mió. Eu num fui.”

Inté na presente data não sei qual a opinião do Marcelo Cavalo. Bozo fanático e meio lelé da cuca. Eu também não fui.

 

 

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