Acabei por sentir nele a verdade

Nem sempre fui acostumado a ouvir ou falar verdades.

Algumas mentirinhas fizeram parte da minha infância.

“Mãe. Acabei de terminar a lição de casa. Pai, sabe aquele moleque parrudo? O mesmo que me bateu depois da aula. Dei-lhe uma tunda enorme que o deixou de olho roxo”.

Mal sabiam eles que toda a minha gabolice não passava de uma solene mentirinha. A lição de casa estava pela metade. O tal garoto parrudo me metia um medo danado. E dele fugia como o diabo da cruz credo.

E assim convivia eu entre inverdades e meias verdades. Uma mentirinha ali. Um pecadinho acolá. Não tinham a capacidade de me fazer vermelho como um pimentão maduro.

E eu não era tido como mentiroso pelos meus amigos de infância. Como era bom aluno era respeitado e tido como caxias. De vez em sempre permitia.  A uma coleguinha linda. Se não me equivoco seu nome era Rosemirian. Ela era três anos mais jovem do que eu. A cada cruzada de pernas que ela dava quase caía da cadeira. E ela assentava-se a uma carteira bem do meu lado direito. E a mini saia que ela usava me permitia ver além das entrelinhas de sua calcinha branca de rendas azuis. Não precisa dizer que elazinha era boa em aritmética. E me dava cola nesta matéria e eu retribuía dando-lhe cola em português. Naqueles anos ex esta matéria se chamava de língua pátria.

E os anos passarinharam. Eu, de bom aluno em português acabei me apaixonando pela minha coleguinha de cor de jambo por madurar. E que pernas lindas ela possuía. E que sorriso faceiro a danadinha me enviava. Até que um belo dia. Era uma sexta-feira. Dia nacional de folgar.

Uma vez de banho tomado. Cabelos caprichosamente penteados. Depois de uma escova bem feita e ficar debaixo do secador por mais de uma hora inteira. Foi no rela do jardim que nos vimos.  Ela com quinze aninhos e eu com mais três. Depois de nos olharmos de banda. Não havia nenhuma banda na praça. Foi que começou o nosso romance. E deu no que deu depois de mais de dez anos de namorico. E somos ainda casados prestes a completar bodas de qualquer coisa. Entre tapas e afagos nos acarinhamos.

Continuando a falar sobre verdades e mentiras. Como o mundo anda faltando com o decoro. Como as fake News tem abundado como as bundas passaram a ser objeto da cobiça de quase todos os turistas que para aqui acorrem. Soberbamente nos festejos de carnaval.

Ontem foi a posse do novo presidente. Lula começa seu terceiro mandato a frente de nossa nação empobrecida e ao mesmo tempo tão rica em recursos naturais.

Alardeiam que o Brasil é o celeiro que deveria municiar os quatro continentes. Só que cá a comida não se mostra a todas as gentes. Têm pessoas que vivem a cata de lixo nos lixões a céu aberto. E outros nababos que detém a imensa maioria da grana que anda curta como as saias da minha namoradinha que se tornou minha amada esposa Rosa ou Rosemirian.

Ontem assisti em parte ao desfile em carro aberto pela esplanada dos ministérios em Brasília. Emocionei-me às lágrimas durante a subida pela rampa. Quando uma catadora de reciclado colocou a faixa no peito estufado de orgulho genuíno do nosso presidente recém empossado.

Encantou-me o teor de seus discursos inflamados.

E quando a viralatinha adotada pelo Lula enquanto preso em Curitiba abanava o seu rabinho toda vaidosa no colo de primeira dama Janja. A qual me pareceu não uma figura decorativa e sim uma mulher forte e guerreira. Creio que ela será o esteio onde o presidente vai amarrar sua jumenta.

Depois de todas as celebrações e aplausos da multidão que se aglomerava pelas bandas das avenidas não pude deixar meu aplauso contido.

Nem meu grito de orgulho por ser brasileiro.

Foi quando me remeti ao passado. Com aquelas mentirinhas levadas de criança mimada.

“Mãe! Eu quero leite! Mãezinha. Vou fazer o dever de casa assim que terminar meu banho de bacia. Mãezinha querida.  Não me ponha de castigo pois vou me desculpar com meu tio por ter quebrado a vidraça de sua casa com uma bolada extraviada”.

Depois de ouvir o presidente Lula discursar. Com sua fala carregada de emoção. Levando-o às lágrimas quando de sua boca saiu: “por favor me ajudem! Estou desempregado e com fome.”

Acabei por sentir nele a doçura da verdade verdadeira.

 

 

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