Acabei por aceitar

Por vezes a derrota dói.

Com a mesma intensidade de um punhal ensartado dentro do peito. Bem nas profundezas do âmago. Atingindo em cheio nosso órgão que pensam ser o responsável pelo bombeamento do sangue a irrigar o corpo inteiro.

No entanto. Este mesmo coração pulsante é em verdade sede de nossos sentimentos. Onde nascem e faz escorrerem nossas lágrimas quando o motivo é a forte emoção que nos consome. Num momento de sentimentalismo exacerbado. No meu caso é quase sempre incontrolável e inarredável. Pois me acho um poço profundo onde cabem todas as gotas salinas descidas de nossos olhos.

Agora mesmo, nesta tarde linda do primeiro dia do mês de janeiro. Quando nosso presidente toma posse. Pela segunda vez adentrei à minha oficina de trabalho. Deixando minha amada esposa a assistir pela televisão toda a cerimônia da entrega de faixa ao nosso mandatário maior. Não foi a ele em quem votei na derradeira eleição. Confesso tê-lo feito noutra ocasião.

Assim que galguei ao final da rua curta. Do meu apartamento à Misseno de Pádua. Deparei-me com um jovem cabisbaixo. Assentado ao passeio. Com o semblante carregado de tristeza. O motivo mostrava-se em sua cara jovem. Por certo seria mais uma vítima do desemprego. Mais um a lastimar a crise por que passamos. Mais um faminto a cavoucar um saco de lixo onde porventura houvesse restos de comida a mitigar-lhe a fome. E infelizmente nada pude fazer para atenuar-lhe o sofrer. A não ser me condoer de sua penúria.

Ao entrar em minha sala ampla. Ao olhar a intimidade do meu aquário vi. Como estes olhos enxergadores. Dois peixinhos mortos. Um boiando na superfície. O segundo de olhinhos cerrados no fundo.

Com meu puçá retirei ambos das águas límpidas do meu aquário. Atirei-os pela janela pensando que eles dois poderiam avoar ao céu dos peixes ornamentais. Desejo que suas quedas lhes sejam leves. Como desejo a todos os brasileiros um ano de dois mil e vinte e três bem melhor do que este que passou.

Voltando à Brasília. De volta do outro extremo do país. Deixando a linda Gramado a encantar aqueles que a visitam.

Acabei por aceitar a derrota. Meu voto não foi no atual presidente. Já escrevi. Com estes dez dedos escrevinhadores. Inspirado pelas circunstâncias. Num desatino do qual me penitencio. Confesso ter falado mal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula para os íntimos.

Já o rotulei de Lula Ladrão. Já disse. E não irei repetir. Que prefiro lula molusco frito à milanesa do restaurante da Thais.

Já falei inverdades. Ditadas pelas fake News. Que como pode. Num país sério. Um ex presidiário ser guindado a presidente desta nação. Qual seria a nossa imagem lá fora tendo um presidente que alardeia a falta de ter se graduado numa universidade qualquer. Como se cultura fosse de propriedade tão somente de pessoas letradas. Mal sabem vocês que aprendo mais com um homem do campo que com doutores e pós doutores formados em faculdades deste e dalém mar.

Hoje assisti em parte à cerimônia de posse do presidente Lula. Encantei-me com a presteza e o sorriso de sua Janja. Com sua figura não apenas decorativa ao lado do presidente no desfile pela esplanada dos ministérios.

Ela esbanja categoria. Considero-a uma primeira dama perfeita.

Emocionei-me às lágrimas durante a execução do hino nacional brasileiro. Fui levado às lágrimas durante a sua fala quando as lágrimas dele caíram junto as minhas.

O discurso por ele proferido. Embora ele apenas fosse o leitor. Gostaria que as mesmas palavras fossem minhas.

E a entrega da faixa? Não teria sido mais perfeita que meus olhos presenciaram. Não fez nenhuma falta a ausência do ex presidente. No qual depositei meu voto na urna no pleito passado.

Nesta hora tardia. Deste domingo primeiro de um novo ano. Despede-se dois mil e vinte e dois.

Acabei por aceitar a derrota. E assumo minha nova mudança de intenção de voto.

Não me considero vira folha. Embora considere ver folhas mortas debruçarem-se ao chão em pleno outono uma maravilha.

Aceitem. Como eu. Lula para presidente. Unam-se em prol de um Brasil melhor.

É o que desejo a vocês todos de coração a larga.

 

 

 

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