Pra mim tanto faz

“Não fede nem exala odor”

Essa era a expressão favorita do velho Antenor.

Pra mim também assim o é.

Antes fazia birra quando não ganhava de presente. Seja de aniversário ou nos festejos natalinos. Aquela bicicletinha de rodinhas amarelas. Cujo quadro fedia a novidade. Toda moderninha. Cujo precinho não era nada camarada. Ainda me lembro da etiqueta indicativa do preço. Que aparecia no papel de embrulho. Exatamente novecentos e noventa e nove. E a vendedora não aceitou o desconto pedido pelo meu saudoso pai. E não reduziu nenhum décimo de centavos ao preço já previamente marcado.

Já nos dias de hoje. Uma vez vencida a serra da idade. Pra mim tanto faz como tanto fez. Já que prefiro correr pelas próprias pernas a bicicletar pelas estradas. Como os ciclistas fazem em grupos.

Já pra o seu Antenor. Vizinho de pasto na minha roça. Velho que não se acha idoso. E nunca foi vaidoso. Embora tenha sido um moço garboso na sua juventude. A vida a ele ensinou que de nadica de nada adianta protestar. Seja em barracas armadas pelos passeios ou avenidas. Em protestos a favor ou contra a posse do presidente recém elegido. Já que o outro. Vencido no pleito do ano passado. Acabou avoando em direção a Miami. Levando nas asas do seu avião avoante sua linda esposa evangélica praticante. E não tá nem aí para o nosso país que se exploda.  E a gente que se dane. E não reclame tanto.

Estamos exatamente no primeiro dia do novo ano. Dois mil e vinte e três nos acena do planalto. Com o novo mandatário desfilando em carro aberto pela península de nossa capital federal. Trazendo ao seu lado outra primeira dama. Não a de copas como a linda Michele. E sim uma outra distinta. Meio louquinha. Esbaforida como saracurinhas saltitantes num charco alagadiço.

E, naquela mesma madrugada. Ainda bem cedo. Ao cantar do galo e cacarejar das galinhas.

Ao Seu Antenor não lhe restava outra coisa senão se por de pé. Lavar a cara sonolenta na bica de água fria que descia do morro alto. Água límpida despejada gota a gota da mina. De vez em quando. Quando a chuva caia em demasia. A água não era tão cristalina. Turvava-se pelo barro amarronzado.

E as vaquinhas tatu com cobra não peçonhentas já o esperavam à beira do curral lamacento e escorregadio. Eis que o velho Antenor. Com cara de pão amanhecido. Duro. De bolsos vazios. Acabou escorregando na lama e foi de focinho ao chão. Excomungou ao deus do barro. Persignou-se por tal injúria naquela hora de raiva intensa. E foi. Com a roupa mais suja que pau de galinheiro. Cujas galinhas estavam em crise de piriri da brota. Cagando de minuto a minuto. Fedendo a camarão estragado. Na prateleira do supermercado.  E começou a ordenhar as vacas assentado àquele banquinho tosco. Feito improvisado com restos de um caixote carcomido pelos cupins. E mais uma vez foi ao chão duro da sala de ordenha. Tendo ainda sofrido outra queda de bunda no chão. Por sorte as suas duas nádegas eram bem providas de carne de segunda. Já que a picanha estava ainda com o preço nas alturas. Da baixa envergadura moral do novo presidente antes conhecido como sapo barbudo.

E, se não bastasse tantos infortúnios o não tão velho Antenor ainda tinha de ir à cidade naquele primeiro dia do ano. Feriado nacional. Quando tudo deveria estar de portas fechadas.

Até mesmo o banco onde deveria ter pago a primeira prestação de um empréstimo feito a juros escorchantes. Para poder plantar a roça de milho na finalidade de encher os buracões onde depositar a silagem. Na intenção de dar de comer ao seu rebanho de mais de cinquenta vacas baldeiras. Fora a bezerrada faminta que mal esperava serem libertos da cordinha que as atava as pernas de trás de suas mãezinhas.

Lá pelas bandas das dez da manhã. Assim que a chuva serenou. Seu Antenor ainda devia tratar da porcada sempre grunhenta e barulhenta que dentro do chiqueiro berrava de fome. Isso sem contar a capina da horta de couve. A qual. Devido às chuvas incessantes eram presas fáceis de pulgões e coisas e loisas ainda piores. E a venda de hortaliças complementava a renda do leite. Que já era pouca.

Naquele primeiro dia do novo ano o pobre sitiante Antenor. Que noite fora aquela! Tinha de se levantar de minuto a minuto para esvaziar a bexiga. Pois era chegada a infeliz hora de a próstata inchar. Prestes a ter a bexiga estourar o pobre e sofredor Antenor teve de sair às pressas em busca de um posto de saúde a fim de aliviar a dor que sentia na sua pelve inchada.

E nada de a ajuda encontrar. Pois na cidadezinha próxima não havia médico de plantão. E a tal Upa estava de porteiras fechadas. A espera da posse do presidente entrante. E ele não subia a rampa nem da própria mulher. O que fazer para que a tal pipa o novo presidente voasse baixo. Pelo menos. E não fracassasse na hora do vamos ver.

E mais uma vez o infeliz Antenor não teve a quem recorrer. Só ao bom Deus podia pedir a graça para a sua desgraça. E Ele mais uma vez atendeu as suas súplicas. Enviou um anjo do céu para enfiar uma sonda em sua uretra entupida. De onde saiu da sua bexiga estourando quase três litros de urina mais fedorenta que o mesmo pau de galinheiro mais sujo que o presente e o passado do presidente entrante.

Foi quando passei pela casa humilde do Seu Antenor. Já no meio da noite do dia primeiro do mês de janeiro. Quando o encontrei exausto. De joelhos. Orando ao papai do céu que intercedesse junto ao Deus Pai todo poderoso. Que fizesse deste novo ano um ano de fato melhor que o passado.

Ele, Seu Antenor, me olhou nos olhos. Com os seus lacrimejantes. E me disse isso: “quer mesmo saber o que acho? Entra ano e se despede outro. É sempre a mesma coisa. Pra mim tanto faz como tanto fez. Dá tudo igual.”

Pra mim também.

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