E se…

Dúvidas, incertezas, hesitações, arrepsias, indecisões, indeterminações, inseguranças, irresoluções, confusões, ambiguidades, e inúmeras outras sinonímias marcaram-me a vida, desde quando deixei o acalento do útero de minha saudosa mãe.

Quando jovem, após ter deixado o curso cientifico pra trás, comecei a pensar no que seria mais tarde. Em menino, quando fazia esta mesma pergunta a um outro menino, ladino, espertinho, não espertalhão, ele, em resposta a minha questão, sobre o que desejaria ser mais tarde, ele logo me respondia: “quero ser grande”.

Essa hesitação, que nos sobe à cabeça, assim que deixamos a segurança de nossos lares, faz parte de nossa existência. Qual profissão iremos seguir?

Se paramos por aqui e acolá. Começamos a trabalhar. Interrompemos os estudos. No meio de um lago seco no meio do nada. Ou começamos a nadar.

Muitas vezes ainda não sabemos se seremos médicos, engenheiros, padeiros madrugões, escritores, no Brasil não se trata de uma profissão propriamente dita, pois da venda de livros não se vive, pois a maioria de nossa gente não aprendeu o baba, ou, se sim, não sabe soletrar, e, se sabe não entende o que o livro mostra, são chamados analfabetos funcionais, e persistimos nesta solene ambiguidade.

E assim acabei por me definir pela medicina. Doce e difícil sina. Ao mesmo tempo tempestuosa e cheia de calmaria. Sujeita a percalços e sucessos. Recheada de estudos que não deveriam parar. Pois ser médico exige, além de vocação, e uma dosezinha de inteligência, estudos, preparo, ter de enfrentar uma seleção chamada de vestibular, e, depois de graduados, que seja numa boa universidade, outras dificuldades se interpõem entre nós e o futuro.

O médico não pode dizer que o futuro a Deus pertence. Pois ele, com sua maleta de couro negro como as asas dos urubus, cheia de aparelhos como estetoscópio, manômetro de aferir pressão, quantas e tamanhas pressões vai ter de enfrentar. Pois sobre aquele esculápio novato, inexperiente, de pouco egresso de uma residência cheia de plantões intermináveis, varando madrugadas, tendo de acordar noite adentro a fim de tentar estancar um sangramento, que pela ferida operatória sangra, sob o rico iminente de perder a vida de um paciente, que nem é seu, e sim de outro doutor, o chefe da residência, que naquela hora madrugada dorme e descansa exausto depois de um dia cheio, consultório, não tendo mais cadeiras para que os consultantes confiram as suas nadegas ao assento, de cirurgias várias, seja em qual especialidade for, agora, depois de quase cinquenta anos de formado, me dou o direito não de me aposentar por completo. Pois quem aposenta o médico é o doente. Apenas nos dias de agora faço só o que me apraz.

E se, pensando com a cabeça pensativa, se por acaso, por um descaso do destino, tivesse em enveredado por outro caminho? O que seria de mim? Caso fosse engenheiro construtor, que edificasse prédios altos, mais altos do que aquela serra, seria em verdade um bom profissional? E se, tantos ses, se eu fosse um padeiro madrugão, talvez me saísse bem. Pois acordo à hora em que a padaria madruga. Mas não sei como se faz um pãozinho sequer. Queimaria toda a fornada. E seria demitido na hora. Sem direito a choro nem vela. Seria dispensado por justa causa.

Ontem, nas bandas da noite, já era tarde, não sei definir a hora exata, recebi um zap de uma pessoa querida, com um desejo de boa noite, enfeitada com uma linda figurinha de uma meninazinha de braços dados com um vermelho coração.

Ao lado desta mensagem linda figurava uma velha fotografia. A qual ainda vou postar no face. E trancar dentro do meu coração.

Era eu e outra menina. Eu de terninho escuro, camisa branca com uma gravata da mesma cor do terno, cabelo preto puxado de lado, mãos cruzadas, uma apertando a outra, de braços dados com a mesma mocinha, que agora está casada com outro homem que não eu.

Elazinha toda linda. Vestida num vestido branquinho. Cabelos negros como a asa da graúna. Com a sua mão direita entrelaçando o meu braço esquerdo.

Não sei que festa seria aquela. Talvez a sua festa de quinze anos. Ou a minha? Só o passado poderia dizer.

Aí me indago outro se.

Se por acaso me tivesse casado com aquela mocinha linda seria tão feliz como hoje tento ser?

Teríamos quantos filhos? E quantos netos me acarinhariam?

Se por outro acaso, não neste quase ocaso de minha vida, pois não sei quantos anos mais viverei, a gente tivesse se encontrado no rela do jardim, como encontrei minha amada Rosa, e deste encontro fugaz a gente fosse pilhado em fragrante aos beijos e amassos, seríamos perdoados pelo santo padre que rezou missa naquele domingo domingueiro?

Aquela linda fotografia teve a fidalguia de me fazer remontar aos verdes anos de dantes.

Quando, em verdade, era feliz e mal o sabia.

Deixando os ses de lado, são tantos ses, que nem sei contar, se por acaso eu voltasse ao passado, de papel amassado, embrulhado num pacote colorido pelas cores do arco íris, talvez eu fosse, se casado com aquela mocinha linda, agora não a tenho visto, como quando  morava no condomínio, mais ou menos feliz?

Sei, após confessar que nada sei, que felicidade rima com bem estar. Que ela não se encontra numa cara fechada. Muito menos num sorriso trancado. Nem ao menos num amor mal acabado.

E sim no sorrido de uma criança após receber um presentinho de um Papai Noel imaginário. O abraço bem dado de um avozinho de barbas nevadas. Depois de ser banido de uma casa de idosos.

Se eu pudesse, e minha imaginação me permitisse, diria àquela mocinha, trajando um lindo vestido branco, o quanto ficaria feliz por fazer-lhe uma visita. Vê-la tocando o seu piano. Ou recitando uma prosa minha.

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