Se. Uma palavrinha de duas letras que enseja muita coisa.
Da mesma maneira que a expressão perda de tempo expressa um vazio dentro da gente que não se preenche jamais.
Perder tempo significa, dada à azáfama, à correria que a gente anda, apressados, quase sempre, não tendo tempo nem para admirar as estrelas em noites enluaradas, escutar o canto dos pintassilgos, ouvir a grita das maritacas em bando à espera de as jabuticabas amadurecerem, a algaravia dos pardais, viralatinhas entre os passarinhos mais nobres, ou até mesmo para tentar ajudar àquele pedinte a esmolar numa rua central de nossa cidade, ou pular aquele corpo adormecido na calçada, trata-se de um ser humano menos aquinhoado pela fortuna, não tenham dúvidas. O tempo não para. Os ponteiros dos relógios caminham frenéticos sempre no sentido horário.
E, por falar em horário, em horas, como gostaria de parar o meu relógio. Estacionar os ponteiros exatamente nos meus vinte anos, ou ainda melhor, quando criança inocente ao lado dos meus pais.
Sempre fui um obstinado em tentar incutir nas mentes das pessoas um cadinho de literatura.
Cultura, não aquela terra abençoada rica em nutrientes, fértil como a minha mente. E sim outro tipo de cultura, em suas várias vestimentas: pintura, canto, literatura, música, representar, cultivar flores tão lindas como as orquídeas, bem como toda manifestação intimamente, unissonamente, intrinsecamente, lado a lado com tudo de bonito que nosso planeta, tão sofrido, ao mesmo tempo tanto lindo, mostra em nuanças diversificadas, desde quando me entendo por gente.
Hoje, antes do almoço, saí do consultório em direção ao condomínio onde morei. Por anos e anos a fio e pavio.
Gostaria de lá, naquele lugar paradisíaco, recheado de muito verde e cheio de cores multicores, apanhar correspondências ali deixadas pelo carteiro, já que ainda não sabem que mudei de endereço.
Assim o fiz. A cidade de Lavras está atravessando um período, pós pandemia, de muito progresso.
As ruas principais, assim como as da periferia, estão recebendo de presente um asfalto novo. Muitos de nós podem pensar que por detrás deste atropelo tinto com o negrume do asfalto algumas inconveniências podem existir. Agora mesmo estou com meu sapatênis com o solado pretinho.
Subi pela rua principal com minha bolsa castanha dependurada no pescoço. Como sabem, muitos dos meus leitores, que dentro dela residem livros recém lançados.
Passei por lojas novas e velhuscas. Com a intenção de fazer catiras, trocas ou permutas.
Gostaria que dois de meus livros fossem despejados de dentro de minha pasta.
Fui entrando, loja por loja adentro, já que as portas estavam abertas, tentando falar com o dono.
Na maioria das vezes o proprietário não estava presente. E eu, estoicamente, ia oferecendo, tanto ao gerente, como a algum balconista, a tal catira de um dos meus livros por alguma mercadoria em estoque dentro da loja.
O meu Mugido de Vaca e Cheiro de Curral gostaria de barganhar por um sapato semi novo. Já o outro residente na minha pasta preta manjada, qualquer coisiquinha serviria como escambo. Por Quem os Sinos não Dobram, de custo mais caro, pediria ao funcionário da tal loja um utensilio elétrico qualquer. Desde que a catira fosse na orelha. Sem volta ou revolta de ambas as partes.
Todo o meu périplo em disseminar cultura, versátil em literatura pura, foi em vão.
Nenhures aceitou a catira. Por uma desculpinha qualquer. Ou diziam, na minha lata, que a esposa não gostava de ler, ou, que, seu cãozinho tinha um defeitinho – comia livros com a capa e tudo.
Ao chegar ao meu apartamento, aqui defronte, a minha querida secretária do lar, Ângela, de Ijaci, afiançou-me: “doutor. De nada adianta o senhor tentar vender ou catirar livros. O pessoal não costuma ler. Escrever, então, pensam ser coisa de desocupados. A internet sepultou livros editados. Fica na sua. Pode continuar a escrever. Mas nunca deixe a Urologia adormecer”.
E ela terminou assim: “é perder seu tempo tentar incutir cultura nas mentes obscuras que pululam por aí”.
Depois de tanto lero lero, de tanto jogar conversa na geladeira, cá comigo matutei.
Não creio que tenha sido perda de tempo minhas andanças na manhã de hoje.
Além de ter exercitado as minhas pernas andarilhas, ainda, de quebra, me deu de presente esta crônica de agora.