Pra quê?
Tantos porqueres me intrigam.
Por causa de quê, me pergunto.
Tenho dúvidas sobre o porquê de tantos porqueres. E ainda mais quando o assunto trata de um porque sem acento. Se se escreve por que em duas palavras, unidas ou desunidas. Com um chapeuzinho por sobre a cabeça do e final. E ainda mais por que razão muita gente tem de tudo e não encontra a felicidade, no luxo, na ostentação, na riqueza que afronta os olhos, dos que nada tem, e tem de sobra a felicidade, a dar e emprestar aos outros, por uma simplesinha razão de que a tal felicidade não se acha no luxo e na opulência, e se encontra de sobra na singeleza do singelo.
Pra quê? Tantas vezes me pergunto. Sou um perguntão sem assunto que motive as minhas incontáveis indagações.
Pra que escrever tanto? Se não tenho a quem vender ou desovar, de dentro da minha estante, tantos e tantos livros que esperam compradores. Já que foram editados há mais de cinco anos passados.
Pra que dar vazão à inspiração que me cavouca por dentro? Seria melhor guardá-la, sem ressentimento, dentro do meu âmago, do meu cerne, e deixar tantas crônicas, mais de dez mil, guardadas dentro do baú do meu computador. À espera de um dia criar coragem e me aventurar a lançar mais um livro meu. Com este, que nasce no dia vinte, do corrente agosto, Leia com meus olhos, incrédulos, conto o número dezenove.
Pra que escrever tanto, perder um tempo precioso, escrevinhando estas preciosidades, a cada manhã que nasce. Perfilar letrinhas, uma a umazinha, endireitá-las em frases soltas, que juntas irão compor a sinfonia de um livro. Neste paizinho desnorteado, onde a incultura mora em cada esquina, fazendo companhia aos sem tetos andarilhos, sem lenço ou documento que comprove a sua analfabetice funcional. Que lê sem entender o que está escrito.
Pra que escrever tanto? Se nos entretantos, na hora do vamos ver, quando a gente tenta vender livros, e saímos com uma bolsa castanha dependurada no pescoço, pelas ruas da minha Lavras querida, aquele desconhecido, ou sobejamente conhecido, de olhos arregalados, sem entender a nossa intenção de esparramar cultura e sabedoria, passa batido, e, com um latido de dizer não, diz que nosso livro custa os olhos da cara. E com que cara a gente não tem uma resposta malcriada a dar ao cara que nunca leu nem bula de remédio. E irremediavelmente está perdida a cultura e a educação de nosso Brasil. Cujo um ex presidente um dia afirmou, nunca ter conferido suas nádegas ao assento, se vangloriando de nunca ter lido um livro sequer. Do começo ao fim.
Pra que estudar tanto. Dominar não sei quantas línguas. Se a nossa gente, sofrida, às custas de uma administração capenga, confunde idioma com língua. Com suas línguas de trapo. Palradores contumazes. Que nem sabe que o português é a última flor do lácio inculta e bela.
Pra que escrever tanto. Distribuindo encantos pelos rincões afora. Pois quem escreve livros constrói um castelo. Quem o lê passa a habitá-lo.
E eu moro dentro de um livro. Aliás, resido em muitos deles. Serão dezenove a serem completados no próximo dia vinte.
Creio ter sido ontem o acontecido.
Tenho o meu consultório neste prédio alto, aqui na Misseno de Pádua. No sétimo andar. E que vista maravilhosa de aqui vejo.
Lado a lado, parede a parede, fica o ambulatório de especialidades da Santa Casa de Misericórdia. Retirando a misericórdia trata-se de um hospital maravilhoso.
Quando aqui chego, nas madrugadas, antes das seis, começo a escrever.
Esta hora pra mim é sagrada. Pena que não fecho a porta.
Quando teclo o teclado negro do meu computador começo a viajar. Sem sair do lugar.
A inspiração me domina. Sou todo sentidos em alerta máximo.
E, de repente, não mais que num repente, uma pessoa, desinformada e iletrada, passa a tossir na ante sala da minha secretária.
Paro a minha escrita. Desconcentro-me. E saio lá fora a indagar o que aquela pessoinha deseja.
Justo à porta de entrada, do meu consultório, em letras garrafais, enormes, se pode ler: “PAULO EXPEDITO RODARTE DE ABREU, UROLOGIA.
E a tal pessoa me pergunta se aqui é o consultório de um doutor fulano de tal.
Simplesmente, educadamente, levo o paciente à sala do lado. Tenho vontade de dizer: “o senhor não sabe ler? O que está escrito neste frontispício da minha porta”?
Pra quê? Por quê? Tanto escrever, se ninguém, poucos, gostam de ler…