Por mais que busque a felicidade ela sempre me escapa por entre os dedos

Como definir felicidade?

Frases tentam identificá-la: “felicidade é simplicidade. E apreciar cada detalhe da vida com atenção”.

Se assim for sou feliz a cada dia. Pois nada me foge à imaginação.

“As lágrimas de alegria são como as gotas de chuva de verão atravessadas pelos raios de sol”.

E como amo a chuva mansa, que colore a pastaria de um verdume sem par. Depois de um inverno seco como estamos atravessando.

“Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente”.

Assim sendo a minha passa no compasso da inspiração e alegria.

“Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”.

Daí as pessoas sempre me veem sorrindo.

“A felicidade está em você. Deixe transbordar”.

A minha alegria transborda da mesma maneira que a água da represa não se deixa represar.

“Jamais deixe que sua felicidade dependa dos outros. Ninguém deixaria de ser feliz por você”.

E eu, com minha alegria incontida, por que razão me entristeceria com a tristeza de outrem?

“Felicidade é a combinação de sorte com escolhas bem feitas”.

Quando fiz a escolha da família que me rodeia não poderia desfrutar de alegria maior que em outro berço.

“A felicidade não é um ponto de chegada mas sim uma maneira de caminhar”.

E como eu ando sem parar.

“Dizem que felicidade vem das pequenas coisas. Então olhe para o seu salário e seja feliz”.

Eu me contento com pouco. Daí a intensa felicidade que mora dentro de mim.

“Se alguém não encontra a felicidade em si mesmo, é inútil que a procure em outro lugar”.

Eu, olhando para dentro de mim descobri, num lugar reconditamente escondido, no meio do peito, uns olhinhos brilhantes, dentro dos quais percebi, que era lá que se amoitava a tal felicidade.

Entendo que ela não acontece no cotidiano. Em cada dia de nossa vida.

Pra mim felicidade mora naquela casinha pequenina. Não em palácios suntuosos onde a discórdia habita.

Da mesma forma, um dia, era tarde, quase noite, na minha rocinha, caminhando, sem rumo, percebi, à beira da estrada poeirenta duas luzinhas piscantes.

Na curiosidade de saber quem emitia tal luminosidade parei. Eram dois vagalumes amantes. Um por cima do outro. Aquele, ou aquela, que se deixava montar, por certo seria a fêmea.

Óbvio que o outro seria o amado amante. Sem pedir-lhes licença os apartei. Aprisionei ambos dentro de uma caixinha de fósforo vazia. Sem os seus palitos.

Segui adiante na minha andança noturna. Só parei na varanda da minha casa amarelazul.

Depositei aquela caixinha de onde emanava duas luzinhas piscantes no parapeito da varanda de minha casa na roça. Deixei os dois vagaluminhos se libertarem.

Não sem antes um dedo de prosa: “os senhores são felizes? São por acaso casados. Têm filhos? Há quanto tempo piscam um pelo outro? Esta piscadela que de pouco admirei, por acaso, são um sinal inequívoco de amor? Ou de paixão? Ou seria apenas compaixão? Confesso que não sei”.

Foi quando, daquela que estava por baixo, decerto seria a mulher vagaluma, me respondeu, piscando: “sim senhor, escritor sonâmbulo. Somos felizes à nossa maneira. Não temos casa. Vivemos muito pouco. Não nos preocupamos com a vida alheia. O que nos faz felizes é a nossa luzinha. Que não carece de eletricidade para brilhar. Nem pilhas nem baterias. O que conta, para sermos felizes, é simplesmente iluminar o caminho dos outros, na calada das noites escuras. Somos também chamados de pirilampos. Não importa. O que conta, em verdade, é a nossa felicidade. Que se mostra em nossa débil luzinha que o senhor viu, à beira da estrada”.

Desde então, quando procuro a tal felicidade, que rima com alegria, ela não me escapa mais por entre os dedos. Como assim o fizeram os dois vagaluminhos que naquela noite escura escaparam-me por entre os dedos das minhas mãos. E ainda avoam alegres e felizes, pelas estradas escuras da minha rocinha encantada pelo lusco fusco da luz dos vagalumes.

 

 

 

 

 

 

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