A tenorização do canarinho da terra

Tenorização? Podem me perguntar que bicho é esse.

Não se trata propriamente de um bicho. E sim mais um neologismo Rodarteano.

Tomei por empréstimo. Não afanei.

Aquele grande escritor, autor de Grande Sertão: Veredas, morto prematuramente durante o seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, escrevia no seu estilo próprio. Inconfundível e aprazível. Chamado por muitos de estilo Roseano.

O causo que conto agora, nesta tarde aprazível, ensolarada, começou numa madrugada fria e cinzenta, começo de agosto, se aconteceu, em verdade, não digam que eu inventei.

Era uma tarde de domingo. Creio que outono. Se foi no ano passado podem indagar ao mesmo passado se foi em verdade no pretérito futuro.

Chegava eu à minha rocinha. Depois de sentir saudades do mugido de vaca e cheiro de curral.  E dos canarinhos da terra ciscando o esterco seco ao derredor do curral. O qual, quando o tempo permitisse, e a vontade ditasse, o meu amigo arrendador de minhas terras, o mourejador Roberto, e seu filho forçudo Binho, iam recolher com pás, encher a carreta do trator, e ir distribuindo nas roças lá em cima. Onde um milharal, assim que as chuvas dessem as caras molhadas, seria embonecado, cheinho de espigas graúdas, a fim de preencherem silos enormes. Buracos escavados na terra. Pertinho de onde vacas se alimentam.

Foi naquela mesma tarde de domingo que vi, com estes olhos enxergadores, um canarinho ainda pardinho, antes de se tornar amarelinho, cantador, trovador, trepado num galho mais fino do pé de jabuticaba, antes de elas ficarem pretinhas, tão docinhas de maduras.

Não resisti e fui, pé ante pé, aproximando-me candidamente, até onde o tal passarinho se escondia, timidinho, com medo de ser comido pelo bico pontudo e amarelo de um tucano glutão.

Antes de chegar aonde desejava, ao pé do pé de jabuticaba, eis que escutei um trinado diferente. Não era nada parecido à algaravia que os pardais vira-latas faziam.

Era um canto lírico. De uma sonoridade inconfundivelmente aprazível.

Quando escutei aquela cantoria pensei logo num tenor como o italiano Pavarotti, ou outro, ainda vivo, amaurótico, o maravilhoso Andrea Bocelli.

Aproximei-me, curioso e sossegado, de onde o canarinho estava.

Descobri-o entre as folhas verdes, e as frutinhas ainda verdes das jabuticabas.

Não tive como chegar ao galho fininho de lá nas grimpas. Pois seria um risco cair devido à minha idade.

Mesmo assim, num galho mais baixo, sorrateiramente, puxei prosa com o canarinho da terra.

“Qual o seu nome? E o que você quer ser quando se tornar amarelinho como a flor do girassol? Por acaso o senhorzinho sabe quem foram seus pais”?

E ele, meio assustado e avexado, assim me decantou: “quem é o senhor para se atrever a subir até aqui? Não vê que estou numa aula de canto com um sabiá laranjeira? Embora meu professor de canto esteja na árvore errada, pois deveria estar na laranjeira? Vê se te enxerga seu entrão! Bisbilhoteiro safadão. Da próxima vez bate na porteira. E não me incomoda mais nunquinha”.

Dali me escapuli com meu rabinho abanando tal e qual um cãozinho saudoso do seu dono.

Envergonhado da minha conduta não ilibada.

Tempos depois, em visita à bela Itália, ao teatro onde Pavarotti cantava, assisti, assustado, a um concerto, com c, de um personagem emplumado em amarelo dourado.

Sabem quem era o tenor que entoava a Ave Maria de Schubert?

Quase caí assentado sobre as minhas nádegas.

Acreditem se quiserem e puderem. Nada mais, muito menos, que aquele canarinho que aprendia a cantar com o sabiá laranjeira.

O mesmo canarinho que tenorizei.

 

 

 

 

 

 

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