Desfaço-me

Um dia, não se faz tão longe assim, ao abrir meu baú de guardados, aquela malona de grande tamanho, recheada de antiguidades, fotografias em preto e branco, brinquedos da minha infância, objetos que pertenceram tanto ao meu pai quanto a minha mãezinha querida, ambos hoje, neste primeiro de agosto, olham por nós, num lugar especial, onde um dia nos encontraremos, quase sempre um céu de azulice intensa, agora cinzento, mal me deixando ver a luz do sol, nem o brilho das estrelas, já que uma névoa densa impede não de sentir saudades deles dois, e sim de admirar o azul que tanto me encanta.

Embora digam, com muita propriedade, que, uma vez que a cerração se faça mais tarde o sol racha.

Neste baú antigo, depois de limpar a poeira, o mofo que cobria seu tampo, de enxotar baratas que ali tentavam fazer seu ninho, fui me desfazendo, pouco a pouco, cadinho a cadinho, de algumas lembranças de quando era meninozinho como meus três netinhos hoje os são.

Em primeiro lugar, na superfície do tal baú, reencontrei aquela bicicletinha de rodinhas, das quais me desvencilhei há anos passados. Uma vez a tal bicicletinha de fora daquele baú fiz dela uma doação a outro garotinho pobrezinho, que naquela rua, a mesma onde passei a infância, me olhava com olhos brilhantes de desejo de ter umazinha igual àquela.

Bem debaixo daquela bicicleta de menino percebi, meio enfiada entre trastes velhos, um pião, ainda perfeito, com aquela cordinha que o faz rodopiar. Não o joguei fora. Embrulhei-o numa caixinha de papelão. A espera de algum dos meus netinhos o fizesse girar.

Mais no fundo do velho baú, não tanto quanto minha idade dita, vi, ainda em perfeito estado de conservação, um patinete de rodas de rolimã. Feito pelo meu avô Rodartino. Aquele mesmo avozinho, do qual sou o primeiro neto dos Rodartes, tabelião inspirado, que andava por nossa cidade usando uma sandália de couro marrom, um terninho azul marinho com riscas de giz, e um suspensório a fim de segurar-lhe as calças, de mesmo tecido da saudade que hoje mora dentro de mim.

Foram tantas coisas e loisas que retirei daquele velho baú que nem me lembro mais quantas foram. Desfiz-me de muitas delas. Doei aquelas em perfeito estado. E ainda tenho as que me são mais caras.

Dentro de um envelope de cor verde mata, a mesma cor dos olhos de minha mãe, entre velhas fotografias, lá estava uma em especial.

Era a foto de meu inesquecível pai.

Paulo José de Abreu, bancário de profissão, advogado que poucos anos exerceu a advocacia, já que o bom Deus o convocou a ajudá-lo a fazer petições no céu, foi exatamente no dia de sua morte, naquele ano dois mil, há exatos vinte  e dois anos atrás, que comecei a deitar no papel os textos que hoje somam a mais de dez mil.

A crônica escrita naquela noite enlutada foi intitulada Réquiem a um pai sem limites.

E ela dizia assim: “na sua ausência não poderia me calar, sem deixar públicas estas singelas e honestas considerações, pois, só assim atenuo um pouco a eterna saudade. Obrigado meu pai por ter-me permitido conhecê-lo e admirá-lo nestes agora tão distantes anos ora findos, pelos exemplos de integridade, humildade, obstinação, serenidade, amor ao próximo. Permitiu-me descobrir que acima dos conceitos de carisma, popularidade, estar nas boas  graças de todos, sobretudo os aproveitadores, deve se sobrepor àquelas qualidades a ética, da vontade de acertar, do senso de justiça, de sempre buscar a perfeição, de estar em paz com a consciência, mesmo que isso desagrade à maioria. Agradeço-lhe pelo irrestrito apoio em momentos difíceis, pela orientação segura e competente em todas as fases de nossa existência, pela sua abnegada e incondicional luta em prol de nosso sucesso pessoal, busca constante de nosso bem estar e felicidade. Pelas constantes lições de tenacidade, vontade inquebrantável, destemor em qualquer situação, superação contínua de obstáculos, sejam eles quais forem. Obrigado meu pai pelo exemplo passado de que não existe prazo para continuar na lida, nem idade limítrofe para perseguir seus sonhos e ambições. Um homem sem ocupação seria fatalmente condenado ao esquecimento. O ócio o inicio do fim. Como seu admirador confesso nem de longe acompanho suas múltiplas qualidades. Mas certamente sonho um dia ver no meu filho uma continuação de seus exemplos, pois aquele último vai trilhar sua meritória e nobre profissão. O seu amor ao trabalho, a sua preocupação com os menos afortunados, a sua obstinação em perseguir causas inatingíveis mesmo que delas não obtenha lucro, são estímulos para todos os mortais. Nesta minha profissão, que de certa forma nos embrutece, nos torna menos humanos, somos talvez, pela proximidade de nossa relação com a morte, levados a uma dificuldade crescente de externar sentimentos, de refrear nossas emoções. Talvez por este motivo meu pai, poucas oportunidades tive em nossa relação de lhe abraçar ou dizer tudo isso que agora ouso. Obrigado meu pai, por me permitir que nos últimos instantes de vida terrena me possibilitasse estar ao seu lado, e presenciasse impotente a sua despedida, o final de sua agonia. Foi extremamente penosa a nossa relação pai, filho, médico, na sua lenta e extenuante luta para se manter vivo, vencer a morte que tanto nos assombra. Não é fácil decidir de forma lúcida ou racional, o que deverá ser feito nos casos terminais como o seu, quando os recursos médicos são ineficientes para prolongar uma existência já condenada, ou, atendendo o lado humanitário, pensar unicamente no seu bem estar, e abreviar sua dor e também a nossa. Você, meu pai, não teve em vida seu merecido descanso, nunca foi de fato um aposentado. Ao final de sua carreira no banco teve inicio outra com igual tenacidade e desvelo. Viveu sempre pela família, ou por aqueles que por sua competência ou dedicação lhe procuravam. Agora, que não pertence mais a este mundo, tenha certeza de que lá em cima continua a sua luta incansável pelos mais humildes, procurando viver sempre em função daqueles necessitados, pois sempre foi esta a sua sina. Meu pai, até um dia…

Fechei aquele velho baú de guardados. Desfiz-me de quase tudo. Tampei-o mal segurando as lágrimas. Cerrei o cadeado enferrujado. E joguei a chave fora.

Hoje, dia um do mês de agosto. Dia frio, cinzento, lotado não apenas de saudades suas.

A contragosto como apreciaria que o senhor estivesse ainda ao meu lado. Com aquela fotografia em preto e branco. Eu, de blusão de couro escuro. Cabelos ainda deixando um lindo topete à mostra. Recebendo de suas mãos estendidas um diploma qualquer.

Acredito que o senhor em verdade psicografa as minhas crônicas aí de sua nova morada. Ou as dita com a mesma clarividência de quando, na sua velha Facit, datilografava as suas notáveis petições advocatícias.

Desfiz-me de quase tudo daquele velho baú. Menos da saudade que sua pessoa me traz. Agora e por toda a eternidade. Daqui a incontáveis séculos ainda de ti lembrarei…

 

 

 

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