Entre eles me sinto em casa

Vocês ainda se lembram, tempos vencidos, de como era gostoso visitar amigos, vizinhos, sem ser preciso agendar a visita, simplesmente chegávamos, batíamos à porta, não existiam os tais interfones nem ao menos campainhas, e, sem muito ter de esperar, a esposa de nosso vizinho, com um sorriso aberto, de braços abertos, nos convidava a entrar, embora já fosse tarde da noite, a novela das nove estava no começo, a Juma ainda não havia virado onça, a dona da casa desligava a televisão, pois nos considerava mais importante que a tal série televisiva, e ali mesmo, naquela mesa pequena da sala de jantar era servido um cafezinho passado na hora, um pão de queijo recém saído do forno do velho fogão a lenha, e de lá apenas nos despedíamos lá pelas tantas, com os olhos pregando de sono.

E nem a gente via uma vassoura atrás da porta principal. Indício seguro de que os donos da casa desejavam, em verdade, que a nossa visita fosse embora menos de dez minutos depois.

Bons tempos aqueles, do bonde puxado a cavalo, da velha maria fumaça fazendo piui, piui; do trem de ferro, aquele mesmo que o bom mineiro chamava de trem bão, o mesmo que dava uma boiada inteira pra não fugir da briga, e trocava apertos de mão sem medo de ser contaminado pela tal pandemia, olhava em nossa cara sem pestanejar, e a gente, moleques ainda, tocávamos a campainha das portas de desconhecidos, e fugíamos como o diabo da cruz, e ainda críamos na mula sem cabeça soltando fogo pelas ventas, ouvíamos estórias de fantasminhas camaradas, como o tal Gasparzinho, estórias estas contada no rabo do fogão a lenha, naquelas tardes noites dos invernos quando em verdade fazia frio, pelos nossos avozinhos que o céus levaram, ai que saudade das minhas avozinhas, tanto a vó Belica quanto a avozinha Maria, pena que tudo isso passarinha, numa velocidade de velocípede despencando a ladeira, dirigido pelo meu netinho Gael, um verdadeiro ciclista de rodas cheias.

Desde quando a idade me tomou pelas ventas, sempre quando sou convidado a uma festa de gente chique, tenho de comparecer engravatado, com aquela beca que mais parece um urubu indo comer carniça, efeméride esta cerimoniosa, e, infelizmente tenho de comparecer para não fazer desfeita, muitas vezes nem conheço o dono do regabofe, o faço deveras contrafeito.

Tenho razões que nem a razão sabe de cor.

Confesso-me gente singela como aquela fita amarela. Gravada com o nome simplicidade.

Sou avesso a solenidades solenes. Sinto-me como um az de espada, ou como um quatro de paus, antes de gritar “truco”.

Já, na minha rocinha antes prejuizenta, quando ali apeio, e cumprimento o Seu Zé Antonho, pai do Clardio, da dona Lúcia, esposa do amigo Betão, pai de quatro fios um mió que o outro, vejo, com meus oio, o Painha, fio do inesquecível Tião do Cervo, passo uma vista dolhos por riba do Gerardo da dona Nega, que em verdade é branquinha como algodão doce sem corante, antevejo o amigo de mãos cascorentas como um tatu bola, o Tiãozinho do Aristeu, pai da Vanessa, que pelo meu consultório passou, em tempos idos, da Valéria poeta, do Gilmar que um dia encontrou meu cão perdido, o Del Rey que o bom Deus o convocou para ser seu segurança no céu, o forçudo Gerardão, que dispensava trator para quebrar um milharal inteiro, com a força dos seus dedos fortes, do Zé Peleja, ruim de negocin e home valente que um dia matou uma cascavé com a botina, o melhor ainda, o Zé Correinha, protagonista principal do meu romance Madest, não me esquecendo dos demais, como o amigo Clodoaldo, que cedeu seu nome ao meu cãozinho fila filhotinho de boca preta e dentinhos afiados, e, quando ele crescer, quem se atrever a entrar no meu solar nem digo que ele é meu.

Pois o tal gatuno vai sair de lá às carreiras. Com uma enorme tatuagem mordida na sua bunda branca, que nunca mais vai ser a mesma.

Da mesma forma que não me sinto à vontade entre gente fina e esnobe, entre gente da roça aí sim.

Sinto-me tal e qual um passarinho que fugiu da gaiola prateada, recheada de alpiste e painço, com água fresca à vontade, sem o direito inalienável à liberdade. Como sempre sonhou. Em avoar livre pelos céus.

Entre aquela gente, da prateleira de riba, mesmo que eles falem estropiadamente, aí encontro a minha verdadeira identidade. O mesmo Doutor Paulo Rodarte. Ou Paulo Expedito Rodarte de Abreu. Como fui batizado.

Foi este mesmo prefácio que um colega de faculdade assim me definiu.

Nelson Antônio assim disse de mim: “Quem escreve um livro constrói um castelo. Quem o lê passa a habitá-lo”. Paulo Rodarte é um homem urbano. Não tem o umbigo enterrado na roça. Mas o coração” ….

Realmente assim o sou. E não pretendo mudar. E, se um dia tiver de me mudar, que seja para viver entre aquelas pessoinhas singelas. Que têm as mãos caludas. Tez tostadas pelo sol. Que madrugam antes que o sol nasça. Aqueles mesmos que têm como despertador o cantar do galo. Que abatem porcos capados com lágrimas escorrendo pelo canto dos olhos sensíveis. Para quem a palavra dada vale mais que mil notas promissórias. Que um aperto de mãos significa que o negócio está solenemente fechado. E não volta atrás nem quiaba.

Entre eles me sinto em casa. E, se por acaso, não por um descaso, um dia algum deles me fizer uma visitinha, tanto aqui, no meu consultório, ou no meu apartamento, vou recebê-los com a mesma cordialidade e carinho com que fui recebido em suas casinhas modestas. No rabo do fogão à lenha. Contando causos de assombração e mula descabeçada. Como nos meus velhos tempos de menino…

 

 

 

 

 

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