Quantas e quantas vezes cavalguei, pelas bandas da minha roça, amochilado, na cacunda, com um embornal cheio de livros meus, e, parando por aqui, por acolá, oferecia um dos livros de minha lavra a algum vizinho que, infelizmente não sabia ler.
Mesmo assim parava o cavalinho Theo, hoje de olho furado graças a uma estocada num mourão qualquer, mas aquele olho perdido não lhe faz falta, e ele marcha melhor que a marcha ré da minha pretinha valente, estacionava defronte a um possível comprador, e, como ele renegava os cinquenta reais, preço baixo em se considerando a qualidade ímpar das minhas duzentas crônicas ali indexadas, mesmo assim eu não desistia de desovar de dentro do meu embornal, extremamente pesado, alguns dos meus livros, acabava por catirá-lo por duas dúzias de ovos caipiras, um balaio cheio de espigas de milho já prontas a oferecer às galinhas, um arreio já desvestido de seus freios, o cabresto em pandarecos, um marreco com sua marrequinha novinha, um balde cheio de leite branquinho e espumante, negocin feito na oreia. Sem vorta nem importa.
Já no dia de hoje, quase julho fechando as pálpebras de sono, lá pelas bandas das nove e tantas, desci pela escada, em caminhada segurando onde se escorre a mão direita, com minha pasta amarronzada mais uma vez recheada de dois livros mais novos, fui tentar desovar eles dois à algum pretenso comprador.
Com a crise que mostra a dentadura frouxa, carecendo de ser colada com corega, fui descendo a rua Santana, por aquele passeinho onde meu filho advogado tem escritório na galeria de mesmo nome, até parar na velha sapataria do senhor Maurício sapateiro (sapataria Santo Antônio). O mesmo que tive o privilégio de extrair um cálculo parado no ureter, quando aqui cheguei, vindo da Espanha.
Ali encontrei o continuador de sua saga de remendar sapato velho, como eu, o jovem, nem tanto, o Rômulo conta com menos dois anos da minha, a remendar, bom remendão que é, um solado furado de couro de um sapato de homem macho. Foi ele quem me disse, com aqueles óculos que mais parecem fundo de garrafa velha: “se você estiver triste e acabrunhado abraça o sapato e ele o consola”.
Foi então que pensei: com sola furada ou com meio solado gasto? Por tanto tempo de uso.
Neste ínterim, como ele não tinha dinheiro em caixa acabei por propor-lhe uma catira, ou permuta, ou escambo.
Demos uma volta pela sapataria.
Em Portugal, durante uma visita ao Santuário de Fátima, ao admirar as vitrinas de umas lojinhas, o dono, amável e solícito, senhor letrado e compromissado com um português castiço, assim me respondeu: “o senhor está a dar de comer aos olhos?”
Não estava com fome. E sim curioso a tentar melhorar meu português oriundo da última flor do Lácio inculta e bela.
Voltando à rua Santana, vestindo dois cintos para afivelar melhor minhas calças, um deles foi catirado pelo “Por quem os sinos não dobram”, e segui adiante.
A próxima parada foi no pet shop Late Show. Uma latidora loja de não apenas dar banho nos pets como vende ração, utensílios para minar cãezinhos e canzarrões, vacinas e medicamentos para pets, e muito mais.
Na minha pasta dependurada tal e qual um embornal só restava meu “Mugido de Vaca e Cheiro de Curral”.
Procurei pela dona. Ela não estava pelada. E sim vestida em negro luto.
Propus a ela uma catira.
Um negocin de muié pra home.
Em troca do meu livro de crônicas pedi cinquenta reais.
Ela me olhou de esgueia, empinou os sobrolhos, e disse não.
Aí, não querendo desfazer o negocin, fui fuxicando loja adentro, perguntando a um rapaz simpático, o precin daquilo, quando custava aqueloutro, até chegarmos a um consenso.
Acabamos por entrar em acordão (não foi um acordeom, ou sanfona).
E sim catiramos, com a dona da loja, meu Mugido de Vaca, com cheiro adocicado de curral, por uma bandeja de dar ração ou água ao meu sempre faminto cãozinho Clo. Mais um ossinho pra ele roer em paz. E me deixar em paz quando escrevo no meu notebook que agora vive na minha casa da roça, à espera que eu termine meu romance inacabado. Cujo nome é Rakel com k.
Não sei quem levou manta nas duas catiras. Se meu amigo Rômulo da Sapataria Santo Antônio ou a dona do Late Show.