Já vi, de dentro de um casulo, enfiado num muro qualquer, num belo dia de inverno, de ali dentro nascer uma linda borboleta meio encabulada, depois de um processo lento, que só o bom Deus saberia explicar, aquela metamorfose não ambulante, como um certo poeta escreveu, e sim uma transformação deveras maravilhosa, coisa que a vida acaba nos ensinando de tanto vivermos.
E a gente mesmo muda ao sabor do tempo. Não temos como contradizer o contrário.
De repente, não mais que num repente, aquela criança antes palco da inocência, que brincava de jogar bolinhas de gude, de espetar aquele finca na areia, restos de uma construção, de pular amarelinha, pé ante pé, acaba, mais tarde, a passar horas defronte à televisão, assistindo à galinha pintadinha tentando livrar seus pintainhos das garras afiadas de um gavião, ou a entender, como nós nunca iremos saber como se manuseia o celular, os tablets modernosos, os joguinhos dos aplicativos dos celulares, e acabam, assim que crescem um cadiquinho apenas, como eu espichei até quase um metro e setenta, não sabem mais como foi bom jogar futebol com aquela velha bola de capotão furada, que, uma vez remedada corria redonda pelos campos de várzea, fazendo a alegria da molecada, entre os quais cito-me cheio de orgulho de ter nascido em meio a amigos pobrezinhos e velhos camaradas. Como aqueles meninos da Costa Pereira, que fazia divisas com a rua do Cascalho, aquela mesma pertinho do Lavras Tênis Clube, do Hospital Vaz Monteiro, da casa dos meus pais, do tio Chico Rodarte, do saudoso tio Rui, casado com a querida Dorinha, mais em cima morava meu avô Rodartino, consorciado com minha avozinha amada, aquela mesma que, em meio aos seus canteiros semeava sementes de roseiras, que, no meio delas desabrochavam rosas cor da minha Rosa, esposa e mulher amada.
As transformações continuavam a me acompanhar vida adentro e por aí íamos contentes.
E pelas estradas da vida as mutações nos iam levando.
Até me tornar naquilo que hoje me tornei. Um sênior urologista ainda praticante de sua arte. Um escritor prestes a ver nascer sua décima nona obra, a qual apelidei de Leia com meus olhos.
Aquele que teve o prazer de ler as minhas crônicas escritas há poucos dias, ambas falando de saudades daquele cão pastor alemão que acabou de falecer, o qual descobri seus restos mortais semi enterrado num monte de bagaço de cana, numa fazenda ao lado da minha rocinha, melhor ser informado que agora, nestes dias que me contemplam neste final de julho, acabei de ser presenteado com um lindo filhotinho de cãozinho fila brasileiro, oriundo de uma ninhada de um casal de cães da mesma espécime, cujo dono é um simpático dono de um restaurante que fita os olhos na linda represa do funil, de nome Emerson, proprietário do restaurante O Macaia.
Sabem qual o nome do meu simpático cãozinho da boca preta e o corpo rajado como o de uma onça pintada, não tão linda como a Juma do Pantanal? Clo, Clozinho, tão somente, já que agora ele é pequenininho, mas um belo dia irá crescer, até não poder segurá-lo no meu colinho, como tenho feito nos dias atuais.
Clo foi nomeado com este nome esquisito em honra e glória de um verdadeiro amigo de duas pernas que sempre usa boné. O nome deste amigo, assaz conhecido não só nesta Lavras, cidade dos ipês e das escolas, como em todos os arrabaldes, como o pintor de paredes, bombeiro encanador nas horas de ócio, pedreiro caprichoso e detalhista, gesseiro que não abandona a sua trincha, eletricista pelo qual enfio meu dedo na tomada sem medo de tomar choque, e outras aptidões mais, o meu cãozinho, o meu grudinho, que não se desgarra das minhas pernas fortes, quem não conhece o Clodoaldo não sabe do que ele é capaz.
Um conselho lhes passo: não tentem nunca, jamais, fazê-lo de capacho. Ele é bravo e ranheta. Nunca pisem na sua joanete. Pena que ele não a tem.
Ontem, quando me fiz acompanhar pelo Marquinho, hábil instalador de internet, pois faltava na minha rocinha encantada um sinal, já que eu, escritor ainda não reconhecido pelo meu valor devido, carecia de um sinal que me plugasse pelo resto do planeta, para dar um desfecho no meu romance inacabado, o de nome Rakel com k.
Fomos, em duas conduções, pela estrada poeirenta, de Ijaci até passar, à mão esquerda, não dobrando em direção as Contendas, e sim em frente, sempre adiante, até chegar à casa do bom amigo Roberto. Pai do Binho, do Carlinho, da Lucilene Lucas, da menina Seriema, que deixou de correr pelas estradas pois encontrou, na pessoa sempre disposta a ajudar, o amigo Tales, o seu ponto de apoio, tal e qual encontrei na minha linda Rosa o esteio onde amarro a minha égua, e, frases longas cansam, e, para encurtá-la dou um descanso aos meus leitores.
Acabei de vacinar meu outro amigo Clo. Vermifuguei-o também.
E elezinho não se desgrudava do seu dono. Fomos em comitiva ao Solar Paulo da Rosa.
Marquinho, que não se desgruda de sua máscara negra, nem para se alimentar, eu, lá embaixo já estava o Binho, molhando a grama recém plantada, meu novato amiguinho, o de boca preta e corpo rajado, encontrei o amigo Roberto, aquele mesmo que amenizou minha fome com uma quentinha, no meio da estrada, e lá fomos nós.
Durante a instalação da internet naquele lugar paradisíaco, subindo e descendo pelos telhados, o sabido Marquinhos, sócio do Rafael, o qual ainda não tive o prazer de conhecer, notei, pelos olhinhos esverdeados do Clozinho, que elezinho gostaria de me dizer alguma coisa.
Foi quando escutei, através de seus latidinhos, isso que lhes confidencio neste momento mágico: “doutorzinho Paulo Rodarte. Sabe quem sou eu? Já sabia, quando vim parar neste lugar lindo, o quanto o senhor amava seu outro cão, chamado Del Rey. E pena. Ele veio a falecer. Foi vosmecê mesmo quem o encontrou enfiado no meio daquele monte de bagaço de cana. Dejetos da fábrica de rapadura e açúcar mascavo dos filhos do seu amigo o juiz Jaziel Carvalho. Que hoje mora juntinho ao seu amigão do peito o cão pastor alemão Del Rey. Para tentar amenizar a sua dor fui enviado dos céus. Era o cãozinho de guarda do menino Jesus. O filho de Deus Pai, nosso senhor. Se o senhor acredita em reencarnação. Ou não. Podes crer. Quem em verdade sou eu? Nada mais, nada menos, que a metamorfose do seu amado Del Rey”.
Foi aí, neste exato momento, olhando nos olhinhos enternecidos de amizade e bondade pura, do queridinho Clozinho, que passei a crer, em verdade, que sim. Existe tudo, desde que a gente tenha fé.
Clo me foi dado de presente por outro amigo. O Emerson, dono do restaurante o Macaia.
E, não duvidem jamais. Meu outro amiguinho, de quatro patas e boca preta, que vai crescer alguns centímetros mais, de fato é a metamorfose ambulante do meu saudoso Del Rey.