Pra muitos ela é a mais antiga das profissões.
E ainda pensam que é fácil vender o corpo por alguns caraminguados. Ter de suportar sobre o seu um peso de um homem qualquer. Seja ele jovem, idoso, mal cheiroso ou exalando o perfume de uma caca qualquer, ter de se sujeitar a imposições e posições ditadas pelo parceiro, muitas vezes embriagado, que lhe promete pagar o combinado e por vezes lhe dá o calote, e tem de fugir às carreiras como se fosse criminosa durante a batida da polícia investigando o tráfico de drogas, e que vida é essa? Pra mim nada mais nada menos que uma droga de vida.
E qual a distinção entre garota de programa e prostituta?
A primeira é tida como uma mulher jovem que se prostitui sem se expor nas ruas como a prostituta comum, geralmente fazendo contatos por telefone fixos ou celulares. Elas não se consideram prostitutas, rameiras, meretrizes, ou outro nome que são batizadas.
E sim algo mais acima na escala social.
Já a meretriz de verdade é aquela que vende seu corpo por algum dinheiro. Aquela que oferece seus préstimos sexuais desde que lhe paguem ou a municiem de drogas. Elas geralmente têm vida curta. E acabam abatidas ou presas depois de um programa que de repente terminou mal.
Quando estava em visita à velha cadeia de nossa cidade, na intenção de escrever meu Mundo das Sombras, fui testemunha in loco de um casamento acontecido numa das celas daquele xilindró.
Helena, como se epitetava a transexual, enfeitada de véu e grinalda, vestida num resumido vestido de um branco desbotado, depois de um banho de canequinha, já que ali não havia nem ao menos um chuveiro decente, enrolada a uma toalhinha encardida, se fez mulher, de dois detentos.
Não vi nenhum pároco naquela cerimônia entre grades enferrujadas. E não sei se a pobre Helena teve direito a uma lua de fel.
Há anos passados, quando em busca de personagens para meu romance Madest, na volta de minha rocinha antes prejuizenta acabei estacionando a minha caminhonetinha, não a de agora. E sim outra vermelhinha. Da mesma marca Fiat.
Era um prostíbulo situado perto de onde hoje é um lacticínio que recém mudou de dono, mas não de nome.
Subi uma pequena elevação. Naquela hora tardia poucos fregueses lá estavam. Um chapeludo de chapéu de palha. Cheirando a barro fétido de curral sujo. Um rapaz, ainda imberbe, que procurava uma rameira na intenção de conseguir sua primeira ejaculação. Penso ter sido rapidinha como o farfalhar de asas de um beija flor. Um outro que não me lembro quem seria.
Já faz tempo esta visita.
Foi quando, ainda em camisola, deve ter saído de um banho morno, depois de ser montada por não sei quantos garanhões da quebrada, depois de me apresentar como médico escritor, afirmei não estar naquele lugar para fazer um programa com uma de suas damas da noite. Ela se disse chamar Aninha.
Contava, contrariando as rugas de sua face, com, segundo me disse, com exatos trinta e três anos. Pensei, cá comigo, em dobrar a conta por talvez mais um e meio janeiros.
Aninha, já mais desencabulada, começou a sua história desde quando os primórdios dos seus treze aninhos.
Ela era nascida não aqui. E sim em outra cidade onde uma universidade agrícola rivalizava em qualidade com a nossa UFLA.
Elazinha era filha de pais separados. Seus progenitores viviam da renda das vacas e seu leite.
Até quando sua amada mãe deixou o pai, ainda jovem e linda, por um bom partido. Que ali, na zona rural de Viçosa passou e não deixou saudades.
Desde então Aninha nunca mais a viu.
Ela não se sentia à vontade naquela rocinha perdida nos cafundós de nenhum santo de pau oco. Dizia, às suas coleguinhas de escola, que na roça mulher não tem vez nem futuro.
Aos quinze, desarvorada e desvestida, experimentou o orgasmo pela vez primeira.
Foi com um negrinho que pulava tal e qual um sacizinho. Aquela primeira relação, sem penetração, durou menos que a florada dos ipês. E foi em agosto.
A partir de aí a menina Aninha se mudou da roça pra cidade. De embornal dependurado no pescoço, e mochila na cacunda, Aninha sumiu, de repente, sem deixar rastros.
Foi morar na capital do seu estado. Naquela BH, distinta de como se mostra nos dias de hoje, elazinha foi morar debaixo de um viaduto, por onde passavam ônibus lotados egressos da rodoviária da capital.
Aninha ainda era virginal. Não somente no signo quanto na sua cavidade ainda cerrada pelo selo da castidade.
Como fazer para sobreviver ali, se nada tinha para vender, a não ser a sua vagina, a sua bundinha linda e arrebitada, seus olhinhos de uma cor indefinida, suas pernas grossas sem um dedo sequer de veias varicosas. E seus seios duros. Outro capítulo nesta história triste.
A linda Aninha veio a se prostituir. Naqueles idos anos garotas de programa ou acompanhantes chiques eram ainda desconhecidas.
O primeiro, já sabem que não foi o derradeiro, a montar em seu lindo traseiro, foi um negão bem dotado. Sem ter ainda visto seu pênis penso medir trinta centímetros flácido e quase quarenta em ereção parcial.
E como doeu aquela primeira transa de verdade. Seu himen roto dele emanava um sangue rutilante que maculou aquele lencolzinho antes branco. Uma poça de sangue se formou.
Aninha, de mocinha linda se metamorfoseou em mulher.
Aos vinte e poucos anos Aninha parecia uma dama quase cinquentenária.
Vivia e recebia os fregueses num hotelzinho de quinta categoria numa rua frequentada por rameiras velhacas e vetustas, conhecida como rua Guaicurus Credo.
E ali passou péssimos dias até se mudar para a cidade de Lavras, depois foi a vez de Ijaci, até conseguir alguns trocados e comprou esta chácara, não tanto valorizada quanto no dia em que a conheci.
Aninha terminou sua história pois outros clientes impacientes esperavam por ela.
Foi quando elazinha entrou num quartinho de porta azul marinho. Fazendo-se acompanhar por um chapeludo que trocava as pernas de tanta cachaça das ruins.
Em menina a sonhadora Aninha dormia cedinho. Olhava pro alto. Sonhava ser uma estrelinha mimosa e de rica luminosidade.
Pena que o sonho terminou neste pesadelo de agora. Aninha, não mais criança hoje é a dona de um prostibulo. E ainda recebe a monta não muito elegante de como deveria ser montar numa égua marchadeira.
E ainda dizem que ser mulher de vida fácil é fácil. É como acordar bem cedo. Ir ao curral. E ordenhar não sei quantas vacas baldeiras. Faça chuva ou descabele o sol…