Por que você foi morrer tão longe?

Perto, distante, não conta.

O que importa, deveras, é que a gente possa acompanhar de pertinho o último suspiro daquele ente querido, daquele amigo chegado, quando ele se despede da vida e deixa saudades tantas, quantas aquela que senti quando me despedi dos meus pais.

A gente, infelizmente, não pode escolher o local onde morrer.

Se me fosse facultado, e me atendessem ao meu desejo, gostaria que fosse aqui mesmo.

Nesta sala ampla. Com vistas para o meu passado. Onde sempre chego ao nascer do dia. Mais ou menos antes das seis da manhã. Onde descarrego e carrego minha bateria. Sem ser preciso enfiar o dedo na tomada. Deixando o que tanto me aflige ser extravasado em minhas crônicas matinais. Como se fosse uma tempestade incontrolável e cheia de raios que riscam o céu. E como tem feito falta a chuva neste período seco de inverno.

“Pra morrer basta estar vivo”. Assim mo disse um velho amigo. A quem visitava sempre de volta da minha roça. O sempre lembrado Pedro Coimbra. Meu colega de escrita. Que partiu prematuramente. Acredito, piamente, que hoje o amigo Pedro tem sua coluna escrita em algum lugar no jornal dos anjos.

E onde mais gostaria de fechar os olhos? Não poder ver meu coração parar de bater. Pois, morto do jeito que estou, sem sequer poder suspirar, ver as asinhas frenéticas dos beija-flores farfalharem, o grito estridente das maritacas em voo, não adianta tentar escolher o local ideal para morrer.

Meu pai morreu naquela casa que daqui se avista pelos fundos. Em meus braços inermes de médico, sem nada poder fazer a não ser orar.

Já a minha saudosa mãezinha me acompanhou até a Santa Casa. Eu e ela sós. Num fiatizinho azul marinho que foi de meu pai. Ela morreu no centro cirúrgico. E eu, atônito, perplexo, a tudo assistia mais uma vez sem nada poder fazer.

São tantos os lugares nos quais preferiria me despedir da vida que nem conto nos dedos.

Aqui ou acolá. Por detrás da serra. Aos pés do arco íris. Pensando ali estar um pote cheio de ouro. E pra quê? Se na outra existência os bens que colecionamos em vida perdem o valor.

Já pensei em me despedir da vida num caixão cheio de livros meus.

Mais uma vez, pra quê? Se, uma vez enterrado, numa cova escura, quem irá passarinhar os olhos em algum escrito meu?

Já pensei em me despedir da vida numa academia fitness. Correndo lépido na esteira olhando, a frente, o lindo traseiro daquela mocinha que nem sabe quem sou eu.

São tantos os lugares tantos que gostaria de dar meu derradeiro suspiro.

Chupando jabuticabas disputando as melhores e mais doces com os marimbondos. Ou no galho mais alto de um pé de goiaba. Escolhendo as menos bichadas. Sorrindo da carinha de nojo dos bichos de goiaba madura.

 

Já ele, meu inesquecível Del Rey, aquele cão pastor alemão ainda jovem, da idade da minha casa na roça, depois de pertinaz e persistente enfermidade, sempre de olhinhos baixos à minha presença,  nos dias atuais, antes ele quase me derrubava de alegria pura quando permitia que ele deixasse o seu canil, hoje em reforma, há dias atrás desapareceu num sopro. Foi no sábado perto que soube do seu sumiço.

Ele costumava correr atrás de minha pratinha valente assim que levava pães aos amigos moradores da casa amarelazul.

Estranhei quando ele não o fez.

Varei sarandis e campos limpos atrás dele. Fi-lo até montado na égua Santa Rosa.

E nada de encontrá-lo.

Essa espera de encontrar seu paradeiro me agoniava.

Até no sábado passado.

Por informação de um vizinho, quando estava quase desistindo de sua busca, logo acorri ao lugar indicado onde haviam encontrado um corpo de um cão.

Subi um morro topetudo às carreiras. Passei pelo lugar onde antes existia uma velha porteira.

Fui passando por um eucaliptal ensombrado. Desci uma baixada íngreme.

Lá embaixo escutei o barulho de um trator. Quem o conduzia foi o mesmo serviçal que avisou ao amigo Roberto que bem poderia ser meu amigo de quatro patas e um focinho frio.

Infelizmente a morte nos prega peças.

A gente morre sem saber a hora e o lugar.

Foi num monte de cascas de cana seca que encontrei, semi enterrado, meu amigo de tantas lembranças boas.

Del Rey. Tenho a curiosidade de lhe perguntar.

Se bem que nunca terei a resposta às minhas indagações.

“Por que você foi morrer tão longe”?

Jamais saberei.

 

 

 

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