E eu que pensava que depois da morte voltaríamos a ser pó

 

“Então o Senhor Deus formou o ser humano com o pó do solo, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida, e ele tornou-se um ser vivente.”

“Tu és pó e ao pó há de voltar: eis a tua verdade e vocação”.

Retiramos desta  verdade a premissa de que a gente nunca deveria nos vangloriarmos de sermos ricos, belos, bem nascidos, inteligentes ou superdotados, carismáticos ou donos da verdade, pois da terra nascemos, somos na mesma terra enterrados, e, tempos depois, apodrecidos e fétidos, nosso corpo finito se transforma paulatinamente numa ossada reluzente ao sol, um monte de cabelos, já que as vísceras são digeridas pelos germes da terra, nada mais irá restar de nós a não ser um montinho de pó.

O qual muitos guardam como lembranças. Numa caixinha que, ou vai ser guardada numa sala de visitas, debaixo do infausto retrato do defunto, ou as cinzas serão jogadas ao mar.

No meu caso, quando eu tiver de morrer, por favor. Que esta data seja tão longínqua quanto o infinito. Que caia num trinta de fevereiro. Se possível num ano bissexto (será que eu disse uma sandice?)

Antes, muito tempo antes de trasanteontem, quando menino criança, quando morria alguém da familia, ou um conhecido qualquer, eu ia ao velório. Meio escondidinho por detrás da porta. Não importa onde. O fato retrato é que todos os circunstantes só diziam bem do pobre defunto morto. As besteiras, as falcatruas que ele deixou em vida foram solenemente esquecidas. Embora ele fosse uma porcaria logo era santificado. Seus pecados esquecidos e postergados.

E a viúva derramava lágrimas tais e quais cascatas que desciam das pedras. E a outra, bem do lado direito, a amada amante tentava consolar a viúva. E outras damas choravam de tanto rir. Pois sabiam do causo do tal fulano com nada mais, nada menos, que duas dúzias de princesas consortes. Daí penso: melhor exaltar as virtudes em vida. Pois depois da morte de nada adianta esparramar choro nem velas. Nem com uma fita amarela, onde foi escrito o nome da cadela.

Por falar em cadela hoje me confesso de luto fechado.

Ao lado dele já tentei colocar não sei quantas cadelinhas para lhe fazer companhia.

A última delas se chamava Laika Rosa.

Era uma cachorrinha cujo maior defeito era comer galinhas.

Ela foi trazida da represa de Camargos, onde nasceu, para outra represa pra onde sempre vou aos finais de semana.

Tão logo meu amigo peludo, um cão sem defeitos, fora a docilidade demasiada, a viu, logo foi amor ao primeiro latido.

Ela e Del Rey à princípio se estranharam. Fiz de tudo para que eles se dessem bem.

Já me imaginava avô de uma ninhada de Border Collies mesclada com Pastor Alemão (hoje é dia dos avós).

No entanto meu desejo não se concretizou.

Laika hoje vira-lata pelas ruas de Ijaci. Não sei qual o destino que foi feito dela.

Já o amigo Del Rey mais uma vez voltou à solidão de sua morada em reforma.

Na crônica anterior, à procura do Del Rey, contei a minha saga em busca de sua pessoa.

Até hoje cedo não sabia por onde ele andava.

Já havia escarafunchado céus e terras. Até postei uma foto dele no Face.

Hoje, assim que cheguei à minha rocinha encantada e cheia de pepinos, pouco a cadinho vou despepinando-a, logo queria saber notícias do Del Rey.

Deixei a minha esposa no Solar Paulo da Rosa, com meu amigo jardineiro Gilson, logo o Binho chegou de motoca, para descarregar a minha pratinha valente lotada de grama na caçamba.

E parti rumo à casa do amigo Roberto da dona Lucia.

Foi quando tive um choque. Sem encostar um dedinho sequer na tomada de luz.

Foi o mesmo Roberto que me deu a trágica informação.

“Meu amigo Paulo. Agorinha mesmo o capataz do Enrico, filho do Jaziel, dono da fazenda do lado, veio me dizer que Del Rey amanheceu morto nos fundos da fábrica de rapadura e açúcar mascavo. Desde sábado passado ele agonizava por ali.”

Não tive como não segurar o choro. Foi com um apertume no peito que subi o morro agudo, por onde sobe o caminhão leiteiro, até comprovar, com meus próprios olhos a veracidade da triste informação.

Foi com o coração em saltos que passei pelo eucaliptal ensombrado. O mesmo caminho que leva à estrada da Ponte do Funil.

Lá embaixo, poucos metros adiante, ouvi o barulho de um trator. Eram três pessoas que me olhavam sem saber o que meu coração, em frangalhos, dizia.

Foi um deles, um rapaz esguio, o mesmo que levou a notícia ao Roberto, que me levou ao local presumível onde deveria estar o meu amigo desaparecido em circunstâncias misteriosas.

Foi lá, ao meio de um amontoado de cascas de cana, chamado, por quem entende do assunto, de bagaço, que encontrei os restos mortais do amigo Del Rey.

Ele estava semi enterrado no meio daquele resto de cana.

Creio que ele havia falecido há menos de dois ou três dias. Se tanto.

Não precisa dizer o quanto vou sentir a sua ausência. Nem mesmo o filhotinho de fila de nome Clo vai suprir a sua falta.

E eu que pensava que ao pó iríamos terminar. Acabei mudando o meu pensar.

O querido Del Rey embagaçou. Acabou soterrado, sem cerimônias ou exéquias, naquele monte de bagaço de cana onde o encontrei.

Não tive como pranteá-lo naquele momento. Simplesmente chorei só.

Naquele átimo de segundos Deus assoprou nas minhas narinas, com sua voz sibilante: “Paulinho. Não chore. Del Rey foi chamado ao meu lado para servir de guardião aos anjos do céu”.

 

 

 

 

 

 

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