Um santo que não faz milagres

Cada um dos santos que conheço, muitos por mim são lembrados, podem não ser considerados santificados.

Já que a santa mãe igreja não costuma beatificar tantos beatos.

Já eu, antes da idade em que me encontro, embora ignore meus setenta e dois anos, quando olho no espelho, a qual presença evito, logo jogo nele um sapato velho.

E os estilhaços, os caquinhos, pequeninos fragmentos, retornam à minha cara. Mostrando-me, que, de fato sou um velho pensando ser menino.

Quando entro na igreja, quando ela se mostra vazia, olho em direção àquelas imagens santificadas, oro, me penitencio dos meus pecadinhos, me benzo, e dali saio com a alma mais leve. Distintamente de quando ali entrei. E como me faz bem uma oração. Uma singela Ave Maria, um Padre Nosso que estais no céu, ajuda e muito a vencer os percalços do dia após dia.

Sem tentar dar nome aos santos, sem citar a santinha dos desata nós, pois, nestes tempos bicudos, onde as dificuldades se sobressaem às conquistas, onde a gente tem de matar mais de não sei quantos leões por dia, esta santinha milagreira tem desatado nós todos os dias.

Talvez nem todos se lembrem em honra e glória este dia vinte e cinco de julho é dedicado.

Eu mesmo só fui informado pelo zap de um amigo. Justamente pelo protagonista de meu último romance – Por quem os sinos não dobram.

É de domínio público e notório que a educação não é levada à sério neste nosso país.

Aqui abundam bundas curvilíneas. Não faltam cantores que se dobram até o chão.

Predominam e cultuam pessoas vazias, enquanto quem tem valor é deixado no ostracismo.

Quando caminho pelas ruas, desta cidade que um dia foi chamada por Assis Chateaubriand de um dos berços da cultura em nosso país, e ainda terra dos ipês e das escolas, e me deparo com um rapazola, de foninho de ouvido ligado, trazendo no verso da camiseta o nome de um jogador de futebol, não importa qual seja, tanto faz como tanto se desfez, tento fazê-lo voltar os olhos, se por acaso aquele atleta da bola seria em verdade merecedor de tal homenagem, ele, me olha de rabo de olho, e não entende a minha revolta.

E pergunto a vocês: “ não seria melhor deixar grafado nas costas de uma camiseta qualquer não o nome de Romário, Saracura ou Rapadura, e sim de um Nelson Freire, Rubem Alves, Proust, Vicente Celestino, ou outro cientista que tenha descoberto a cura ainda não alcançada do câncer ou outra patologia que ceifa vidas ou aniquila sonhos”?

Hoje, vinte e cinco de julho, é o dia escolhido pelo ex ministro da educação e cultura Pedro Paulo Penido, em 1960, para homenagear escritora e escritores brasileiros.

Não preciso repetir a minha sanha em editar livros. E muito menos dizer que por ser um escritor não conhecido este mesmo tem uma enorme dificuldade em vendê-los.

Basta dizer que na Argentina, mesmo na crise em que se encontra, as bibliotecas abundam como as bundas são postas à venda por aqui.

E se trata de um país onde existem mais pessoas que leem que em quase toda a Europa continente.

Já cá, neste país onde canta o sabiá, e os pássaros que aqui gorjeiam não gorjeiam como acolá, creio que em cada um brasileiro uma mixaria não conhece o abecedário.

E acham que o preço de um bom livro é caro por ser vendido por cinquenta reais. Conquanto uma cervejinha quente, com um pratinho de torresmo duro como o nosso bolso se mostra nestes tempos bicudos, considerando que tudo aquilo é exonerado na latrina, a pessoinha inculta paga cem e ainda ri.

Não querendo me alongar, muito menos desabafar, tenham pelo menos a consciência, e a decência, de não usar livros como enfeite. Deixando-os sobre o tampo da mesa da sala de visitas servindo de suporte a uma fotografia da familia.

Hoje, vinte e cinco de julho, este dia lindo como um livro de Monteiro Lobato, ou de outro de um tal de Machado, que deveria ser considerado um achado para destampar a latrina da ignorância que campeia por aqui, nunca seria demais lembrá-los que hoje é o dia do escritor.

E por que não alertar aos jovens, aqueles descamisados, ou camisetados, que, ao invés de estamparem no verso de suas camisetas nomes de atletas dos estádios lotados de torcedores rusguentos, por que não constar, ali, nomes mais sugestivos de personalidades ilustres de verdade.

Infelizmente, em nosso Brasil, o santo escritor não só consegue viver de sua arte. É um santo que não faz milagres.

 

 

 

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